UNIVERSO DAS COISINHAS

1.6.06

I SEE DEAD DOGS


Bergman, pelo conjunto da obra, ganha comovente homenagem no Recife.
*
Segunda-feira, fui almoçar com um amigo. No meio da refeição, ele questiona: “Você não foi mais lá em casa por causa de Bergman, né?” Eu: “Nã-ã-ã-o”, com vergonha de dizer que sim e contar toda a verdade e que começa com a frase: “Esse povo que tem cachorro é muito sem noção”. Há oito meses, esse amigo cria o cão que leva o nome do autor de Fanny e Alexander, Morangos Silvestres e Persona. Mas ao contrário do cineasta cool, o animal vive com o diabo no couro. É daquele tipo que se avista uma visita na sala, endoida, corre, pula, se joga, dá cambalhotas, lambe, late, se esfrega, deita, rola e não se finge de morto. Ingmar Bergman é lindo, não o véio, o cão. Mas não tenho paciência para essas lambidas e essas demonstrações de afeto canino, ainda mais quando se sabe que um carinho desses pode custar uma conta caríssima na farmácia (toda semana, o Diario aborda uma doença transmitida por cachorro. Na última edição, falou-se em leptospirose, sim, a doença do rato). E o pior é que o dono do bicho acha tudo lindo. Esse abuso dessas pequenas criaturas possivelmente ganhou corpo na minha infância, depois que levei uma carreira de dois furiosos bulldogs e só escapei porque consegui chegar a tempo no portão de casa e subi-lo até ficar sentada no muro, me refazendo do provável enfarte aos oito anos de idade. Só mais tarde, vim descobrir que um “Valei-me, São Roque” pode nos afastar de uma mordida dessas feras. E, por falar em raiva: na terça-feira, levei mais um susto, o quinto, com o cachorro de uma vizinha. Toda vez que passo na rua, esse nojento quase me mata dos "nelvos". E é sempre quando estou distraída. Dessa última vez, veio correndo e latindo forte, parecendo que ia pular o pequeno portão e avançar sobre mim e minha barriga (...). E eu nem estava com o guarda-chuva para poder travar uma luta com o bicho. Não entendo como uma pessoa cria um animal só para poder dar sustos nos transeuntes. Agora mesmo, passei pela rua transversal à minha e estava um dálmata na frente da casa, sem o dono e sem a coleira, só observando o movimento, como aquelas velhinhas de cidade do interior. Assim, sem noção à altura dessas pessoas, só mesmo Rodrigo, o dono do estúdio de ensaio. A primeira vez que fui lá quase desmaio. Simplesmente, o cãozinho dele, um pit-bull veio recepcionar os clientes, dando um pequeno salto sobre nós. Felizmente a única marca que conseguia deixar era as das patas sujas. Rodrigo só parou com essa brincadeira, que terminava com a frase “É uma pit-bull, mas é dócil”, quando eu disse, meio que na brincadeira, que ele poderia ser processado e ter que pagar uma fortuna à uma vítima da cachorra. Depois disso, a cadela passou a ficar boa parte do tempo presa. No último sábado, na Rua do Príncipe, lá vai o rapaz, cabelos loiros soltos ao vento, andando inclinado pra trás na tentativa de conter a cachorra em sua caminhada hostil. Isso, sem a focinheira. Ainda na terça-feira, recebo uma ligação do amigo do início do texto. “Débora, cachorros vêem fenômenos sobrenaturais?”. - “Sim”, respondo com suposta autoridade. Depois dele explicar o acontecido, chegamos à conclusão de que, sim, o “Haley Joel Osment dos bichos” realmente estava vendo “algo”. Talvez, o cãozinho estivesse diante do espectro do avô falecido e por isso os latidos voltados para o vazio, que não o deixava ultrapassar o local onde fixava o olhar. Medo. O certo é que Bergman, com esse “momento Sexto Sentido ou Sétimo Selo”, parece agora fazer jus ao nome. Ah, esqueci de contar as histórias de Pluto, o animalzinho de estimação que, na calada da noite, entrou furtivamente e distribuiu bosta por toda sala do meu ex-apartamento. Ah, e também de Raio! Este residia em Campo Grande. Na lua cheia, quando o infeliz latia bem alto, isso próximo à janela do meu quarto, na antiga casa da minha mãe, só se escutavam os gritos insanos da dona: “CALA A BOCA, RAAAIO!!!”, e o cachorro, sem obedecer a ordem, “AUUUUUU”. Só faltava Zé Ramalho com “Mistérios da meia-noite...”