UNIVERSO DAS COISINHAS

23.5.06

OS MUTANTES MUTARAM


Exemplo para os brasileiros: Morrissey cruzou as pernas, sacodiu o topete, arqueou a sobrancelha e disse, "um revival dos Smiths seria como voltar para a casa dos pais. Eu prefiro comer os próprios testículos" - quando se lembrou de que alguns fãs já os tinham levado desde 1988.
*
Há uma semana escrevi um texto relatando um pequeno episódio de violência presenciado na Madalena e que acabou em morte, e até saiu nos jornais e, como tal, já datou. Portanto, aqui segue outro texto, mais fresquinho e mais fresco: a separação de Paul McCartney. Eu sei que Paul tá lá na puta que o pariu e nem desconfia da minha radiante existência e minha inócua preocupação a respeito dele, mas gostaria de dizer que torço por você, Paul. Como todos sabem, o nosso Sir comeu o pão amassado pelo Cão quando Linda partiu desta. Segundo Heather, de quem ele se separa agora, o homem passou seis meses chorando, dia e noite (apesar do bafafá em torno de John e Yoko, Paul e Linda eram muito mais casal 20 do que os primeiros. Sempre estiveram juntos, enquanto os mais badalados chegaram a se separar e até a se aventurar com outras pessoas). Paul argumentou, há uma semana, que a separação de Heather foi motivada pela invasão de privacidade da imprensa. Nos poupe, Pou. Isso aconteceu muito mais na época de Linda, e, mesmo assim, foram 30 anos colados. O que você deveria ter feito era ter desconfiado do fato de Heather ter dito que nunca tinha escutado Beatles. Nos poupe, mais uma vez. Aonde essa mulher estava? O mesmo caso se deu com John. Yoko, quando conheceu o nosso João Lemos, jurou que nunca tinha escutado Beatles. Talvez isso explique o fato dessas mulheres terem conseguido manter um relacionamento com John Lennon e Paul McCartney e não terem tido um ataque histérico a cada manhã. O certo agora é que nosso Macca está só - como diriam os jornais, “está solteiro”. Mas nós sabemos que não se trata mais daquele garotinho genial dos anos sessenta, Paul agora passa dos sessenta e será, daqui a poucos anos, um velhinho, e não há botox, cirurgia plástica, tintura ou cremes mirabolantes que possam dizer o contrário. Vamos torcer para que esse rapaz encontre alguém que lhe inspire e que, no meio da noite, segure sua mão.
***
Convenhamos, se o mundo conseguiu sobreviver a uma não “volta” dos Beatles, pode passar muito bem sem a dos Mutantes, não é? Essa história do show revival é, convenhamos, mais uma vez, uma palhaçada, principalmente pelo “elemento Zélia Duncan”. Como todos sabem, Zélia Duncan pode ser gente-fina e tal, mas é uma chata no palco, em disco, em DVD e fita-cassete. A graça do grupo era Rita Lee, que, no auge da juventude e da beleza, transpirava, com ar inglês, o comportamento, o estilo, a aura dos anos sessenta. Arnaldo Baptista poderia ser o gênio, mas Rita Lee (que ainda garotinha conseguiu ficar cara a cara com o ex-beatle supracitado e desquitado) tinha o talento, o humor, o carisma necessário para dar credibilidade àquelas músicas. Vejamos o caso de Fernanda Takai. Quando o Pato Fu era uma coisa meio Mutantes e não Super Furry Animals, a mulher do John brasileiro não conseguia interpretar com escracho as canções, sendo apenas bonitinha, fofinha, com sua voz aveludada e jeito de menina. Pois bem, pelo que soube nos jornais, Beck e David Bowie reservaram vaga nesse show da “volta dos Mutantes” e é bom que alguém os avise que vão encontrar pela frente um pedante, uma insossa e um doido. Tive a felicidade e a infelicidade de entrevistar Arnaldo Baptista para o show que ele fez com Lobão no Abril Pro Rock, em 2001 (acho). E foi muito triste falar com uma pessoa praticamente incapacitada. Quase tudo o que eu perguntava, ele interrompia para buscar a resposta ou a opinião da esposa, que parecia ser mais louca do que ele (vamos nos lembrar que Arnaldo terminou de endoidar a partir de uma tentativa de suicídio, praticada depois que Rita pediu o divórcio. Ela partiu para uma bem-sucedida carreira-solo, achando graça demais no que fazia e enchendo o nosso saco com coisas como “Baila Comigo” e “Amor é Prosa, Sexo é Poesia”, e dando uma de Mick Jagger no palco, e ele...). Essa história de revival dos Mutantes poderia até passar em branco, se os Mutantes não fosse a melhor banda de rock que o Brasil já teve. Isso me lembrou agora a Cachorro Grande e sua tentativa de soar “de fora”. Por exemplo, essa música Sinceramente, que está tocando na MTV, apesar de pretender ser beatleniana, tá mais pra Guilherme Arantes. E quer saber? Eu sou mais Guilherme Arantes do que a Cachorro Grande! “Pegar carona nessa cauda do cometa, ver a via-Láctea, estrada tão bonita...”