UNIVERSO DAS COISINHAS

12.4.06

RECIFE CALLING


Mick: "Bora de buzão mesmo, véi!". Joe: "Tu tem R$ 1,65 que me empreste?" Mick: "E num baixou, não, foi?!"
*
Nas últimas semanas aconteceram fatos dignos de registro, a final do campeonato pernambucano (i was there!!!), o abobalhado astronauta brasileiro, as intervenções plásticas de Sônia Braga e Nicole Kidman, a revogação da lei do primeiro emprego francês, a assassina canastrona na Globo, a (possível) vinda do Radiohead ao Tim Festival e Enéas sem barba. No entanto, nada foi mais chocante do que o caso do homem que foi preso, dentro do avião prestes a decolar para Londres, porque o taxista que o levou até ao aeroporto o denunciou de terrorismo. Tudo porque o rapaz estava ouvindo durante o trajeto The Clash (!). Esta é mais uma prova de que as maletices dos taxistas não estão restritas apenas ao limite territorial brasileiro e não estão próximas de acabar. Aqui no Brasil, como se sabe, costuma-se pegar táxi em última instância, só para tirar a mãe da forca. Aí, mesmo pressupondo isto, quando você entra, informa o trajeto, o cidadão no volante acha que você está ali para passear e conhecer as belezas naturais de uma Conde da Boa Vista, de uma Agamenon Magalhães, além de querer saber a opinião dele sobre futebol, política, violência urbana e mudanças climáticas. Certa vez, fui levar Dona Cema, minha tia-avó, para fazer curativo, e tive a oportunidade de me deparar com um peso-pesado desses. O cidadão, achando que eu estava desejando realizar um tour pela cidade, às 20h30, acompanhada de uma simpática e doente velhinha, não deixou o marcador ultrapassar os 40 km. Avistando ao longe o semáforo verde, o mala, que usava um chapéu de cowboy (eu juro), regrediu ainda mais, chegando a 20 km. Quando estava prestes a passar o amarelo, ufa, deu uma freada brusca e esperou o sinal fechar. “Por que o senhor parou?” – “Porque o sinal estava fechado”. Eu: “Estava não. O senhor esperou que ele fechasse”. – “A senhora está muito estressada!” A cliente estressada: “Por favor, pare o carro ali que eu vou descer. E quanto foi a corrida?” Ao pagar a conta, ele diz, “Não tenho troco”. Além de eu ter descido com Dona Cema, 80 e poucos e com Mal de Parkinson, sem a já dispensável ajuda do cavalheiro, ainda fui trocar o dinheiro para o cabra-safado. O mala, achando pouco, ficou me espreitando, talvez para ver em quanto tempo eu conseguiria pegar o próximo táxi, como se eu estivesse num filme rodado em Nova Iorque. Três minutos depois, estou no segundo. E o tal mala ainda ficou emparelhando na estrada, como que apostando corrida. Mal termino de contar a história para o outro taxista, vejo que o taxímetro deste, que estava em cinco reais, no início da corrida, não fora zerado. Ou seja: quem pode com isso? Esta outra aconteceu em 1900 e alguma coisa. Uma amiga voltava de uma farra, ainda sob o efeito do álcool e da festa, fazendo algazarra dentro do táxi com outras amigas, quando o motorista não mais que de repente solta: “Desce”. Elas, “Hã?!”. – “Desce tudinho”. E elas, mesmo argumentando, “Mas, moço, mas moço...”, tiveram que descer. Era madrugada e se encontravam num dos bairros top ten da criminalidade no Recife, os que constam na lista da SDS como “assalto, seqüestro ou morte na certa”. Esta é para fechar: voltava para casa tarde da noite. Segundos após entrar no táxi, levei um susto: o sujeito trava todas as portas (se eu quisesse descer teria que pedir o grande favor a ele). Não deu dois minutos de trajeto, passamos por uma rua bem sinistra, aí o elemento começa: “Achei aqui ontem naquela calçada uma cartela com seis camisinhas novinhas. Elas estão aqui no porta-luvas”. Passada, gelada e com o sangue nos pés, cortei, “O senhor pára, que eu vou descer”. Falei isso, na rua seguinte, mais movimentada, para poder então pegar um outro...táxi. Com todos esses exemplos de bom comportamento dos taxistas no mundo, não é de se estranhar que o representante britânico da categoria fosse tentar salvar o mundo denunciando o pobre coitado do cliente que escutava The Clash... Aliás, esta história poderia render uma música. Punk.
P.S: Tenho uma desconfiança de que todo taxista é tricolor...