UNIVERSO DAS COISINHAS

24.4.06

V DE VIZINHOS, VINÍCIUS, VALDEVINO E VALDEMAR


Carequinha: "Vivi, véio, vamo nos vingar do vuco-vuco dos vizinhos!" V: "Vem, vaidosa vagalume virginal! Vamos sem vagabundice e vacilo, vaiar as vicissitudes vis da vida!"
*
Se a vingança é um prato que se come frio, o meu está gelado. Explico agora o tema azêdo “vingança” (não por conta do filme produzido pelos superestimados irmãos Matrix): que sentimentos permeariam seu doce coração se o vizinho do andar superior produzisse recorrentes e intermináveis barulhos em horas inconvenientes, como a suave manhã de um feriado? Pois bem, sexta-feira pela manhã (era um feriado, pelo amor de Deus!!!), gastei alguns neurônios pensando em formas de "dar o troco" à bendita Família do Quinto Andar, após o despertar dos infernos. Vou descrever o ambiente, moro numa rua onde a maior zoada que se ouve é a dos angelicais bem-te-vis e os gritos histéricos das pirralhas trigêmeas da casa em frente ao edifício – mas isso bem distante. Nesse cenário árcade, esse núcleo familiar headbanger vem tocando o terror todo dia nos vizinhos do andar debaixo. A começar pelo filho do casal, que só anda correndo pela casa, repito, só anda correndo pela casa. O menino deve brincar com o bojão de gás – imagine o barulho que um bojão de gás faria se conseguisse quicar como uma bola de basquete. Acredite, é isso aí. Em seguida, vem a mãe. A mulher usa salto alto a partir das seis da matina, isso todo dia. Toc, toc, toc pra lá e toc, toc, toc pra cá. Marinho, meu irmão, que certa vez teve o privilégio de ser acordado lá em casa por esses sons, questionou: tem certeza de que não são fantasmas? Yellow teve medo de perguntar ao porteiro e obter uma resposta tipo: “Bem, desde aquela tragédia...”. Para exemplificar melhor, os barulhos são parecidos com os do filme Água Negra, remake de Walter Sales ou Salles. Medo. Mas depois daquela sexta, 21 de abril, tenho certeza de que ali está funcionando uma mercearia e o Gepetto que mora lá deve estar concebendo o Pinóquio 2006. Vamos aguardar. Em meio a tanta alteração sonora, conseguimos assistir Vinícius. O documentário, bem elogiado pela crítica, só peca pelas costumeiras invencionices pseudo-artísticas do cinema brasileiro, como a dispensável declamação de poemas feita por atores afetados quebrando o clima da narrativa. Tirando isso, um dos melhores trechos é aquele em que Vinicius, com o copo de uísque na mão (Sim...), canta (esqueci a música), com a cabeça deitada no ombro de Tom, enquanto este toca violão. Não precisa dizer que os dois estão hiper-mega-superbêbados. O filme, aliás, é a maior concentração de papudinhos por metro de película na história dos documentários (a lista começa com o próprio poeta-compositor e segue com Chico Buarque, Baden Powell, Tom Jobim, Toquinho...). Depois de vermos o filme sobre o cara que agarrou todas as mulheres que pôde e as que não pôde (mesmo!), assistimos a “Virgem de 40 anos”, que é bonzinho, mas não tão engraçado quanto Vinícius - e boa parte da diversão de Vinícius está na tecla “avançar” do seu controle remoto, quando aparece Camila Morgado, a Virgem da Paixão de Cristo, fazendo o maldito recital. E por falar em vingança, ao contrário do que despejou boa parte da crítica sobre a velha conversa "transposição de HQ para a telona", "ideologia x indústria do cinema", V de Vingança é ótimo! O que também não quer dizer que os irmãos Matrix sejam geniais por terem produzido o filme, e muito menos dirigido ...Matrix! Um dia, todos vão descobrir e aceitar que Matrix é um engodo! (Vou comer esse prato bem gelado, pelo andar da carruagem...).
*
P.S.: Tive um vizinho que se chamava Valdemar, Seu Valdemar. O homem queria porque queria ter um filho homem, pra colocar um nome que começasse com V. Aí teve o primeiro: foi menina. Vânia. Depois vieram Viene, Valdênia, Valdelice, Valma, Vanda, até que ele teve um menino e finalmente pôde sossegar em paz e cumprir o antigo desejo. Aí botou no esperado rebento o tão afamado Wilson. Eu posso com wilson?

12.4.06

RECIFE CALLING


Mick: "Bora de buzão mesmo, véi!". Joe: "Tu tem R$ 1,65 que me empreste?" Mick: "E num baixou, não, foi?!"
*
Nas últimas semanas aconteceram fatos dignos de registro, a final do campeonato pernambucano (i was there!!!), o abobalhado astronauta brasileiro, as intervenções plásticas de Sônia Braga e Nicole Kidman, a revogação da lei do primeiro emprego francês, a assassina canastrona na Globo, a (possível) vinda do Radiohead ao Tim Festival e Enéas sem barba. No entanto, nada foi mais chocante do que o caso do homem que foi preso, dentro do avião prestes a decolar para Londres, porque o taxista que o levou até ao aeroporto o denunciou de terrorismo. Tudo porque o rapaz estava ouvindo durante o trajeto The Clash (!). Esta é mais uma prova de que as maletices dos taxistas não estão restritas apenas ao limite territorial brasileiro e não estão próximas de acabar. Aqui no Brasil, como se sabe, costuma-se pegar táxi em última instância, só para tirar a mãe da forca. Aí, mesmo pressupondo isto, quando você entra, informa o trajeto, o cidadão no volante acha que você está ali para passear e conhecer as belezas naturais de uma Conde da Boa Vista, de uma Agamenon Magalhães, além de querer saber a opinião dele sobre futebol, política, violência urbana e mudanças climáticas. Certa vez, fui levar Dona Cema, minha tia-avó, para fazer curativo, e tive a oportunidade de me deparar com um peso-pesado desses. O cidadão, achando que eu estava desejando realizar um tour pela cidade, às 20h30, acompanhada de uma simpática e doente velhinha, não deixou o marcador ultrapassar os 40 km. Avistando ao longe o semáforo verde, o mala, que usava um chapéu de cowboy (eu juro), regrediu ainda mais, chegando a 20 km. Quando estava prestes a passar o amarelo, ufa, deu uma freada brusca e esperou o sinal fechar. “Por que o senhor parou?” – “Porque o sinal estava fechado”. Eu: “Estava não. O senhor esperou que ele fechasse”. – “A senhora está muito estressada!” A cliente estressada: “Por favor, pare o carro ali que eu vou descer. E quanto foi a corrida?” Ao pagar a conta, ele diz, “Não tenho troco”. Além de eu ter descido com Dona Cema, 80 e poucos e com Mal de Parkinson, sem a já dispensável ajuda do cavalheiro, ainda fui trocar o dinheiro para o cabra-safado. O mala, achando pouco, ficou me espreitando, talvez para ver em quanto tempo eu conseguiria pegar o próximo táxi, como se eu estivesse num filme rodado em Nova Iorque. Três minutos depois, estou no segundo. E o tal mala ainda ficou emparelhando na estrada, como que apostando corrida. Mal termino de contar a história para o outro taxista, vejo que o taxímetro deste, que estava em cinco reais, no início da corrida, não fora zerado. Ou seja: quem pode com isso? Esta outra aconteceu em 1900 e alguma coisa. Uma amiga voltava de uma farra, ainda sob o efeito do álcool e da festa, fazendo algazarra dentro do táxi com outras amigas, quando o motorista não mais que de repente solta: “Desce”. Elas, “Hã?!”. – “Desce tudinho”. E elas, mesmo argumentando, “Mas, moço, mas moço...”, tiveram que descer. Era madrugada e se encontravam num dos bairros top ten da criminalidade no Recife, os que constam na lista da SDS como “assalto, seqüestro ou morte na certa”. Esta é para fechar: voltava para casa tarde da noite. Segundos após entrar no táxi, levei um susto: o sujeito trava todas as portas (se eu quisesse descer teria que pedir o grande favor a ele). Não deu dois minutos de trajeto, passamos por uma rua bem sinistra, aí o elemento começa: “Achei aqui ontem naquela calçada uma cartela com seis camisinhas novinhas. Elas estão aqui no porta-luvas”. Passada, gelada e com o sangue nos pés, cortei, “O senhor pára, que eu vou descer”. Falei isso, na rua seguinte, mais movimentada, para poder então pegar um outro...táxi. Com todos esses exemplos de bom comportamento dos taxistas no mundo, não é de se estranhar que o representante britânico da categoria fosse tentar salvar o mundo denunciando o pobre coitado do cliente que escutava The Clash... Aliás, esta história poderia render uma música. Punk.
P.S: Tenho uma desconfiança de que todo taxista é tricolor...