UNIVERSO DAS COISINHAS

30.3.06

"AI, AI, AI", A "TÔ NEM AÍ" DE 2006


Vanessa, a Mata e o Motta (a propósito, de novo? Sai daê! Ôôxe!)
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Pedro Almodóvar revelou que uma das coisas que o faz se ressentir em ser famoso é não poder mais coletar no cotidiano das pessoas comuns idéias para seus filmes. “Ouvir uma conversa entre duas mulheres num ônibus e isso virar um mote para um diálogo em um roteiro”, exemplificou. Eu, se fosse depender desse expediente para sobreviver, estaria passando fome, pois, feliz ou infelizmente, tenho a incrível capacidade de me abstrair quando o assunto não me diz respeito e não me interessa. Nesta semana, aconteceu mais uma vez: entro no consultório médico e escuto uma perua com voz esganiçada e estridente, que obrigava a todos a prestar atenção na conversa. O assunto era daqueles, que, segundo Yellow, ele fica logo bêbado, mesmo que não esteja bebendo. Ela falava de assaltos e ainda dava dicas de como proceder, uma das sugestões: “passe o carro por cima, ao menor sinal de perigo (por “menor sinal de perigo” entenda-se, um rapaz preto, mal vestido e olhando pro lados)”. No período em que estivemos na ante-sala da médica, antes de fugirmos para tomar um café numa loja ali perto, a perua contou, pelo menos, uns 17 casos de assalto, que acometeram parentes, amigos e amantes. Prontamente, peguei um jornal e acionei o dispositivo contra “conversa fiada”. No entanto, quando a voz de Olívia Palito chegou a decibéis intoleráveis, dei um basta: está na hora de fugir. “Yellow, vamos sair, enquanto a médica não vem”. Na rua, ele, chocado, pergunta: tu escutou o que aquela mulher disse?!!! – Não, só tava ouvindo o som da voz. Ele: “Ela teve coragem de dizer que a família mandou matar o assaltante que matou o primo dela, e que, para recompensar a mãe do criminoso, dão uma cesta básica todo mês, como se fosse um gesto de caridade, porque o bandido “era arrimo de família””. Fiquei passada com a ousadia da grã-fina (tinha pinta de grã-fina) e com a competência do meu dispositivo “Desregistrator de Conversa Mole Tabajara”, e mais ainda, com o “coronelismo” que ainda reina em Pernambuco. Quando voltamos do café, olhei com uma cara de reprovação para a perua, e não sei se foi isso, ou um milagre, mas, pelo menos, ela baixou o volume, desistindo de colocar todos os (in)pacientes a par da sua “visão de mundo”.
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No último final de semana, assisti ao DVD do Fantástico, aquele já lançado há algum tempo. A minha sugestão é: veja. Não pelas reportagens de mil novecentos e antigamente, tipo, “o mistério da morte de Kennedy”, “o mistério das pirâmides”, “o mistério dos astronautas”, “o mistério das formigas”, quase todas do hoje ministro Hélio Costa e com edição que parecia ter sido feita por um sub-sub-Hitchcock. Por falar em Hitch, tem, inclusive, uma entrevista com ele. Mas o melhor do DVD é inegavelmente as entrevistas do finado colunista Ibrahim Sued. Imperdível. Tente não rir com o visual e o palavreado cafajeste. Parece uma brincadeira, um arremedo, mas era verdade. Parece Hélio de La Penha imitando repórter no Casseta & Planeta. Um brinde a Ibrahim Sued!
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Por falar em jornalista, neste fim de semana, um amigo me contou que aconteceu o seguinte caso: a redação está em sua hora mais agitada, os teclados a toda prova, os telefones tocando, os editores e repórteres arrancando os cabelos, aí irrompe alguém de um outro departamento, que não sei, e começa: “Pessoal”. Faz-se o silêncio. “Estou aqui para fazer uma solicitação às mulheres: não venham mais com blusas de alça e calças de cintura baixa, mostrando o cofrinho”. Rompe-se o silêncio (claro!). Segundo a pessoa do aviso, o jornal está sofrendo uma queda de produtividade e já descobriu os responsáveis (isso é que é jornalismo investigativo!). Segundo o Papa-Figo, é um absurdo que num jornal onde se dá tanto valor à economia, o cofre esteja tão desvalorizado.
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Aconteceu em 1995, ou 1996, Marisa Monte vinha ao Recife para apresentar o concorrido show “Cor de Rosa Verde Amarelo Carvão”. Os jornais bombardeavam notas, matérias, entrevistas, fotos com a cantora. Quem não fosse analfabeto, leu, no mínimo, uma nota neste período. Quem não leu provavelmente não tinha nascido ou estava morto. Eu estava “passando uma chuva” como estagiária do Mispe (enquanto Camilo e Camerino viajavam a Cuba). O museu era gerenciado pelo ex-crítico de cinema e gente boa Celso Marconi (o que levou dois murros de Ariano, “este é pra você, e este é pra Jomar”). Nessa época, o veterano jornalista, cansado desses frissons, bafons, bochichos e bafafás de caderno de cultura, exclamou com sua voz aguda, ao abrir mais um jornal: “Só se fala de Marisa Monte, Marisa Monte, Marisa Monte! Eu não quero saber de Marisa Monte! Entre ir pra esse show de Marisa Monte e morrer, eu prefiro morrer! Eu quero morrer! Eu quero morrer!!!”. Agora, dez anos depois, não sei como o bom Celso está sobrevivendo, principalmente nestas últimas semanas, quando só se fala em Vanessa da Mata, Vanessa da Mata, Vanessa da Mata. E em abril tem mais. Ai, ai.