UNIVERSO DAS COISINHAS

20.2.06

FOREVER YOUNG


Mick e Bono, juntos consomem a maior quantidade de tinta pra cabelo na história da música.
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Antes dos sixties, a “onda era ser velho”. Segundo Nelson (quando digo “Nelson”, não preciso dizer o Rodrigues, né? O Nelson Rubens é que não é, muito menos o Piquet ou o Gonçalves), em sua juventude, os jovens tinham vergonha de ser jovens: “eu andava rente às paredes, com medo de que alguém descobrisse que eu era jovem”. A partir dos anos 1960, os jovens começaram a falar. E principalmente a serem ouvidos. (Aí, a publicidade os descobriu e danou-se tudo!) Foi nessa época que dois famosos velhos despontaram, Mick Jagger, 62, e Woody Allen, 71. Neste final de semana, fiquei feliz, “satisfeita”, em assistir a mais recente produção dessas pessoas da terceira idade. No sábado, o show dos Rolling Stones não apresentou muita coisa de diferente do que já conhecemos. Apesar das muitas primaveras, Maracujagger continua com fôlego para a performance olímpica de maior vocalista de rock desde que o rock é rock (não porque vem repetindo os gestos, caras, bocas e requebrados, aos quais estamos acostumados, mas porque sintetiza tudo o que um bandleader pode ser no palco: corajoso, carismático, descontraído, agregador, líder). Bom, se algum fã esperava vê-lo jogando-se no chão, na platéia, subindo como uma lagartixa em alguma estrutura de ferro e tirando a roupa (por completo) deve estar pedindo demais para uma pessoa que faz esse serviço há mais de quarenta anos. Creio que exibir aquela barriga de tanque (e não estar careca!), a esta altura da vida, já seja um espetáculo em si. Aliás, esse show poderia ter sido considerado “decadente por completo” (por muitos detratores), se Jagger e o resto da banda estivesse ostentando aquele bucho de chopp, o qual estamos entediados de ver nos sessentões papudinhos deste país. Estou orgulhosa de Mick, de sua barriga, de seu cabelo pintado, de suas pregas, e vou incluir também o fato dele ter cantado “Oh, no, not you again”, o recado pra Luciana “Gimme"nez, que quer ser sua amiga e confidente a pulso (o título da música também vale para os brasileiros que ligam a TV e têm o desprazer de ver e ouvir a perua). Outro caso de “velhinho prodígio” que nos orgulha é Woody Allen, que, quando parecia já ter nos dado tudo o que tinha que dar (não preciso citar a extensa e diversificada lista de filmes extraordinários), nos aparece com esse Match Point, que aparentemente é uma história trivial, dirigida de uma forma trivial, mas o nosso eterno querido diretor-escritor-ator consegue se reinventar realizando uma pequena obra-prima de narrativa sutil, de personagens bem construídos e marcantes e com uma aula de direção, sem malabarismos. Woody e Mick nos deram uma lição: ser jovem ou ser velho só é bom para quem sabe ser.