UNIVERSO DAS COISINHAS

24.1.06


Deus deve ter dito “Bem, amigos, em troca da fama e do sucesso, vocês vão ter que optar entre ser alcoólatra, drogado ou psicopata”. Cada um escolheu a(s) sua(s) alternativa(s) e assim se formou os Ramones. O pior é que mesmo assim, eles continuaram a perseguir o “sucesso” e a “fama” com monumental empenho que ia além de serem “apenas” artistas. É o que registra o End of The Century, documentário definitivo (?) sobre o grupo. Com quase duas horas de duração, o filme foi rodado após a morte de Joey e traz entrevistas “recentes” com Tommy, Marky e os até então vivos e Dee Dee e Johnny, além de outras figuras da época. A “trama” vai dando conta da personalidade de cada um no conjunto. Mas, inevitavelmente, quem atrai mais atenção é Joey, garoto pobre, feio, frágil, tímido, deslocado, “loser”, que do nada vira vocalista de uma banda de rock (o irmão boa-pinta dele conta como foi a inacreditável surpresa ao vê-lo, pela primeira vez, num palco). Tommy narra como lutou para que Joey ficasse ao microfone, e aproveitou para defender que sua ida para as baquetas foi decisiva para que o “som ramone” tomasse corpo, o que é refutado por Dee Dee (“Não, ele não tem importância nenhuma. Poderia ser qualquer baterista”). Há um outro trecho em que fica evidente a competência da realização do documentário, quando o entrevistador pergunta ao “lunga” Johnny “Como foi o problema que envolveu uma garota”, e este desvia, até que o assunto é abordado por terceiros. Tratava-se do “roubo” da namorada de Joey pelo guitarrista, o que nunca foi perdoado pelo primeiro e virou motivo de (mais uma) birra na banda, desta vez uma superbirra, que valeu até a feitura do clássico “The KKK took my baby away”. Linda, a tal baby “tookada away”, que permaneceu casada com Johnny até sua morte, no ano passado, era de fato o primeiro namoro “firme” do donzelo e apaixonado Joey. Mas o mais incrível é que todos nunca tocaram (sem trocadilho) no tema. End of the Century ainda mostra a tumultuada produção do doido, persona non grata e pistoleiro Phil Spector no disco que leva o título do documentário e sua arenga com o guitarrista “papel de embrulhar prego”. Outro ótimo momento acontece justo no Brasil (onde têm mais fãs que nos EUA), com as imagens da van sendo perseguida por uma multidão, e um assustado Joey gritando “JESUS CHRIST!!!”, e do show onde o povo cantava cada sílaba junto com o Varapau (No ano passado, Eddie Vedder, disse à Folha de SP, que “no Brasil, tinham a atenção que mereceriam receber no resto do planeta”). Emocionante. Há trechos também da primeira apresentação na Inglaterra, onde a mirrada platéia contava com integrantes das iniciantes Sex Pistols e Clash - isso tem fala do maravilhoso Joe Strummer, e alguém entregando que o brabo Johnny Rotten queria conhecer os americanos, mas estava com medo de levar uma possível surra, já que estes eram bastante sisudos, usavam jaquetas de couro preto e vinham do subúrbio nova-iorquino. E o filme, que se desenrola tão rápido quanto uma música dos Ramones, termina com a cerimônia do ingresso da banda no Rock’n’Roll Hall of Fame. Lembra-se de Deus?
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P.S.: Eu não vi, mas o fato virou lenda e vale a pena relembrar: João Gordo expulsando os Los Hermanos do seu programa, quando ousaram dizer que não gostavam dos Ramones e que estes “não tinham importância nenhuma” ou coisa parecida. Eles deveriam saber que mesmo no profano existem coisas sagradas.

20.1.06


Ai, Minha Nossa Senhora. Parece que é chegada a hora de bichar. Bichar loucamente. A líder de todas estará entre nós.

17.1.06


O povo quer saber: por onde andam os sósias de Roger Moreira (KC), Ivo Meirelles (à direita, em pé), Ben Harper (à esquerda, em pé) e Agepê (com a camisa cowboy)?
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Ascenso Ferreira estava certo. O ano mal começa e um dos primeiros emails que recebo traz o calendário com os feriados ao longo dos 12 meses (!). 2006 promete, sem contar com Copa e Eleição (Uhuh!!!). “Na hora de trabalhar, pernas pro ar, que ninguém é de ferro!”. E eu não posso beber (espaço para um grito). Tudo bem, não vou passar os próximos 12 meses reclamando sobre o leite derramado, sem trocadalhos.
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Pois bem, anuncio também que não vou encher o saco de ninguém, nem o meu, postando fotos com o bucho crescendo (se eu fizer isso, podem “passar na minha cara”). Se eu não posso postar uma “barriga de tanque”...
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O ano começou e voltamos aos ensaios, eu e Yellow. Temos que aproveitar. Descobri que a partir dos três ou quatro meses (ih...), a criança já tem tímpanos e escuta de lá do útero o barulho que se faz aqui fora. Portanto, é hora de ir ao sebo e comprar aqueles discos da coleção “Música Clássica da Caras”.
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No ensaio, tentamos tocar, a meus pedidos, Give It Up, um dos clássicos do KC & The Sunshine Band. Acho que é importante lembrar que se hoje nas rádios toca-se muita merda, havia alguns anos em que se ouvia algumas merdas que eram boas de se ouvir, e aí se incluem KC & The Sunshine Band, Chicago e Bee Gees. "Please, don't go!"
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Por falar em Caras, por que é tão bom folhear essas revistas de “celebridades”? A gente sabe que é um lixo, que quase tudo é só farsa. Mas o inconsciente deve nos enviar através daquelas imagens de pessoas lindas, sorridentes, bem-vestidas, com taças de bebida na mão, aparentemente de bem com a vida, uma mensagem dizendo que a vida realmente deveria ser assim: bem fresca, bem franga.
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Passei um mês com uma bosta de um vírus no computador (era o site de um cassino que aparecia de dois em dois minutos – o inferno), porque simplesmente acessei (pela primeira vez) o site do Shopping Center Recife. O que foi que eu fiz, Meu Deus?! Seja lá qual foi o meu erro, não vou mais fazer isso. Eu juro. Aprendi a minha lição.
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Na sexta-feira, li a crítica de Kleber Mendonça para o filme novo de Sarah Jessica Parker, criatura que passei do ódio à idolatria e não preciso dizer que foi por conta de Sex and the City. É impressionante a capacidade que KMF tem para fazer as associações mais improváveis e engraçadas na hora de escrever. E tudo isso de uma forma simples.
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Domingo, hora do almoço, casa de uma amiga da família, com toda a família, chorei no final do filme de Zezé di Camargo e Luciano. E o pior é que tenho certeza de que não foram os hormônios em fúria da gravidez que provocaram as lágrimas. Mas me escorei nesse motivo e fui adiante com o mico. Aí olho pra Yellow e ele ta de nariz avermelhado e olhos lacrimejantes. Eram os hormônios também. E isso porque a gente pegou o filme já pela metade. Cruzes.
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Recebi um email de André Balaio sobre um site que nos tira aquela cruel dúvida recorrente, que todos temos em algum momento: se determinada celebridade está morta ou viva. Fora a conta, seus problemas em mesa de bar acabaram. O site (http://www.deadoraliveinfo.com/dead.nsf) já está atualizado com a morte de Shelley Winters, a eterna mãe de “Lolita” (Kubrick), que agora morreu de verdade.
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Assisti finalmente e, bem por acaso, Old Boy. E assisti todinho, olhando pra todas as cenas, a dos dentes, a do polvo, tudo numa boa. Fiquei feliz porque sempre conseguia ver cenas escatológicas e violentas com coragem, até ter “tocado” com Irreversível. Agora o orgulho da minha bravura está renovado, apesar de ontem ter invocado São Roque por causa do latido de um vira-lata.
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Há uma semana, entrei numa loja dessas bem frescas tipo imitação da Avesso. Eu tava procurando uma bolsa que combinasse com meu sapato levemente laranja, aí escuto uma moça, que envergava uma pinta de “dona de loja”, com voz de Lourdinha (Lourdinha é a Patricinha com um grau a mais, aquela que tem seu próprio negócio montado pelo pai, e é mais velha que a anterior). A mulher tece o seguinte diálogo ao telefone: “CAROOOL (todo mundo conhece uma Carol e um Júnior), a gente tem que comprar logo os ingressos do U2, porque os ingressos, porque o U2, aí o U2...!!!”. Isso bem alto, pra loja inteira ouvir. Saí de fininho. Se eu não posso ser platéia de Bono, de Lourdinha é que eu não vou ser, né?
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E aqui segue o calendário dos feriados que recebi:

Carnaval - 25, 26, 27 e 28 de fevereiro
Páscoa - 14, 15 e 16 de abril (21.04) - Tiradentes cai numa SEXTA!
1º de Maio - cai numa segunda!
Corpus Christi - 15, 16, 17 e 18 de
7 de setembro - Quinta
12 de outubro - Quinta
Finados (02.11) - Quinta
15 de novembro – Quarta
08 de dezembro - Sexta

Natal - Segunda
1º de janeiro de 2007 - Segunda


E não é só isso!!!
13.06 (terça) - Brasil x Croácia, às 16h00
18.06 (dom) - Brasil x Austrália, às 13h00
22.06 (quinta) - Japão x Brasil, às 16h00
Oitava - 27.06 (terça), às 12h00
Quarta - 01.07 (sáb), às 16h00
Semifinal - 05.07 (qua), às 16h00

11.1.06


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“Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho”. A frase de um dos hits do Ira! está ficando cada vez mais distante pra mim quanto mais passam estes dias. Há quase um mês tivemos uma notícia, no mínimo, desconcertante, a de que estou grávida. Me senti como a personagem de Uma Thrurman em Kill Bill, quando descobre que o resultado do "exame de farmácia" deu positivo e desiste da vida de crimes. Uma novidade como esta pode mudar a cabeça de qualquer um, muito provavelmente para melhor. Alguns meses antes, tivemos uma conversa sobre ter filhos, “melhor não tê-los”. Primeiro, porque este não é um mundo que encoraje alguém a botar mais pessoas nele. Mas as pessoas continuam a ter mais pessoas, apesar de tudo. E elas vão sobreviver como nós estamos. A pouco mais de sete meses, este novo ser deve chegar, e não encontrará um mundo melhor, social, cultural, econômica, política e ambientalmente falando. E ainda haverá música brega nas rádios e TVs. Mas, certamente, terá ao seu redor pessoas que já o querem e já o protegem desde sempre e que vão amá-lo até onde existir o limite do amor. Todo dia rezo para que ele esteja sendo gerado com saúde, que surja com ela e cresça com ela. Que, se possível, ele seja tão bonito e inteligente quanto o pai, e nenhum pouco neurastênico (adoro essa palavra), como a mãe. Que ele se desenvolva, aprenda e descubra muitas coisas, que complete a maior idade, que passe no vestibular, que seja numa universidade pública de qualidade, que arranje um ótimo emprego (!), que encontre pessoas que gostem mesmo dele, que ele goste de literatura, música, cinema, política, que tenha a casa dele e que vá ter o filho dele. E que não nos dê mais aperreios, como toda criança costuma dar, como o outro lado da felicidade. Penso no futuro, em ter um futuro melhor pra mim, em ter um emprego melhor, um salário melhor e ser uma pessoa melhor. Agora não sou apenas eu, aquela que realmente estava sem esperança. Agora tenho que ir atrás dela e não deixá-la escapar de mim nunca mais.

6.1.06

SE ELES SÃO BONITOS, SOU ALAIN DELON


O Gael Garcia Bernal dos anos 1960.
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Não é com orgulho que somente agora escuto (de verdade), quase dois anos após o lançamento e a dois meses do (perfeito) show do Wilco no Tim Festival, o último CD da banda, A Ghost is Born, o qual Yellow fez a boa ação de baixar e me dar o “baixamento”. Estou com os fones grudados no ouvido, com dedicação exclusiva às faixas At Least, That’s What You Said, Spiders (Kidsmoke) e Company in my Back (essa música assusta de tão simples, estranha e bonita). Antes eu só tinha escutado o começo das faixas de A Ghost is Born no site da Rolling Stone, que sempre dá quatro estrelas para os discos do Wilco (a cotação vai até cinco). Estranho... O que falta para eles?
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Esta semana, assisti Rocco e Seus Irmãos, mais uma obra-prima de Luchino Visconti (Morte em Veneza), encabeçada pelo francês Alain Delon, o Gael Garcia Bernal dos anos 1960. O filme me despertou para uma coisa, até muito óbvia, a de que nós estamos muito acostumados com a limpeza das emoções promovida principalmente por Hollywood. Em alguns trechos do filme, enquanto os atores jorravam lágrimas, quase estrebuchando, Yellow, do meu lado, se acabava de rir, argumentando que era drama demais. Mas não é. O cinema americano, o mesmo que fez o mundo inteiro começar a dizer “eu te amo”, nos trouxe essa visão cool dos sentimentos, onde mães que perdem filhos derramam charmosamente lágrimas, sem estragar a maquiagem e até formulam frases edificantes. No cinema italiano, pelo menos, em alguns dos que assisti, incluindo Ladrões de Bicicleta, o povo quando sofre, sofre mesmo, sofre com força, com o catarro escorrendo, se possível.
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Nessa leva de DVDs, assisti também Um Convidado Bem Trapalhão (The Party). Com ele, descobri o porquê de Peter Sellers ter feito uma cena em uma festa (desta vez, de verdade), dizendo no discurso que Blake Edwards era, na realidade, extremamente medíocre, e que a única coisa que valia em seus filmes (incluindo a série A Pantera Cor de Rosa) era ele próprio, Peter Sellers. O ator, que é a única coisa boa em The Party, estava coberto de razão. Que filme ruim da bexiga! Esse filme é uma aula de como desperdiçar uma boa história. Não vamos esquecer de que Blake Edwards quase conseguiu estragar Bonequinha de Luxo, que tinha tudo pra ser uma obra-prima, mas não é. O apenas bom resultado de Bonequinha foi um milagre, e parte dele operado pelo anjo Audrey.