UNIVERSO DAS COISINHAS

29.12.05

RAP NIUIA


"Olhe sempre pro lado bom da vida..."
*
Ao colocar o pé direito no primeiro degrau do ônibus, ouço o grito: “Glória a Deus nas alturas”! O fato de estar atrasada para voltar ao trabalho depois do almoço me encheu de coragem para não desistir e ultrapassar a catraca com Jesus no coração e mais um real e sessenta e cinco centavos. Das imediações do Shopping Boa Bicha até metade da Caxangá, onde eu desceria, o frangélico, ops, o evangélico interpretou uns 25 clássicos dos que "vão para o Céu". Senti falta do hit “Glória, glória, aleluuuuuuia...”, mas que já deveria ter rolado no início do trajeto, ou rolou no terminal do Torrões. De cabelo Azambuja, bigode Azambuja e a tradicional roupa de crente, que inclui uma camisa ensacada, o crente cantava com voz estridente que lembrava Walmir Chagas, o Velho Mangaba. Eu olhando pra trás nos momentos de maior entrega do gogó de ouro, flagrei-o cantando de olhos fechados e com gestos de Mariah Carey, as mãos descendo de cima a baixo com tremidinhas acompanhando o canto. Os passageiros (“Sou um passageiro...”) já de saco cheio da pregação, chiavam baixinho. Uma mulher ao meu lado suspirou “Ave Maria” e completou, olhando pra mim, “Vem cá, você não é Leonora?”. Penso, “ai, Meu Deus”, e respondo com simpatia, “não, senhora”, balançando discretamente a cabeça para não chamar a atenção do Nelson Gonçalves, que já começava a citar o povo no ônibus, “a irmã aí...”. Neste momento penso em Yellow, homem de pouca fé, que se ali estivesse, teria liberado gargalhadas altas e bizarras, o que o crente merecia. Mas, me distrai olhando pro cobrador, que segurava o riso como podia. Quarenta minutos depois, chego à minha parada com uma sensação de sorte. Fazendo um balanço destes 12 meses de ônibus circulando pela RMR, pelo menos, quatro vezes por semana, encarei gente pedindo dinheiro pra comprar remédio, pra comprar comida, gente cantando, gente pregando, gente vendendo pomada para “frieira, sarna, impinge e outras micoses”, mas, pelo menos, não teve nenhum “Isto é um assalto”. A propósito, esta frase “Isto é um assalto” é muito ridícula. Se o cara está de pé (enquanto todos estão sentados), porta um revolver em punho apontado para uma das vítimas, ninguém espera dele um, “Queridos amigos, venho por meio desta...”. Aí lembro do discurso do “crentino”, “Jesus não quer que ninguém se perca! Ninguém! Ninguém! Ninguém! Issé que é Deus!!!”. Esta quem proferia era uma senhora do apartamento em frente ao meu, cuja janela do quarto ficava cara a cara com a minha. Às vezes, eu, no melhor do sono, acordava com o grito (lá pelas cinco, seis da manhã, a hora que ela acordasse), “ISSÉ QUE É DEUS!!!”. É por estas e outras que algumas pessoas desistem do caminho do bem - a velhinha que dividia o apartamento com ela, botou a amiga pra correr. Com bengala e tudo. “Vai ter tanta fé assim na casa de...”

21.12.05


"Merry Christmas, i don't want to fight tonight"
*
Uma das melhores notícias do final do ano foi o casamento de Elton John, que aconteceu hoje no primeiro dia da oficialização da união entre pessoas do mesmo sexo no Reino Unido. O gesto deve servir como exemplo e chegar ao Terceiro Mundo daqui a uns dez anos, mas é uma prova de que a “viadagem” do preconceito pode estar com seus dias contados, mesmo que sejam dois bilhões de dias. Elton, que tantas alegrias e babas nos deu, merece toda a felicidade que só o verdadeiro amor, somado a uma inacreditável conta bancária, pode proporcionar. E agora vem à minha cabeça um trecho de uma música que tocou muito em rádio, não, não é "Coração, pára que se apaixonou...", é: “Oh and I've been calling / Oh, hey, hey, Johnny / Can't you come out, can't you come out to play". Aí, em vez de Johnny, vem Simone: "Então é Natal...". Soltem o doido!!! (Que depois do Apanhador no Campo de Centeio, deve estar mais doido ainda, com O Código Da Vinci)
*
MELHORES DE 2005
Homem Uó do Ano:
Tom Cruise
Versões Uó do Ano: Qualquer uma que Seu Jorge tenha feito ou fizer (pelo menos, ele não fez a de Então é Natal)
Expectativa Uó do Ano: O beijo gay que não rolou
Filme Uó do Ano: A Vida Aquática com Steve Sissou
Blog do Ano: Miguelito
Mico do Ano: Centenário do Sport e os pênaltis perdidos do Náutico
Show do Caralho do Ano: Wilco, depois da Rádio de Outono e Saia Rodada
Prêmio Geraldinho Lins de Melhor Produtor do Ano: Jarmeson de Lima
Prêmio de Melhor Fuleiragem do ano em blog: Vieira
Casamento "Sai daê" do Ano: Ronaldo e Daniela Cicarelli
Premiação Sem-noção do Ano: Menina de Ouro
Grande Estréia do Ano: Lucas Abelardo, meu sobrinho
Momento “Que ótimo!”: Eu tocando bateria.
Homem Lindo do Ano: O prêmio é dividido entre Fernando Alonso e Hayden Christensen, depois de Yellow
Festa do Ano: De Florilton, com o ônibus saindo de Boa Viagem para Porto de Galinhas
Craque do Ano: Adriano!
Momento "Me segura, Senão eu Caio" do Ano: Julian Casablancas inclinando a cabeça e segurando o microfone para cantar: “I’m not youuur friend / i never waaaas”
Prêmio Arroi de Festa: Ivete Sangalo, Lula, Wander Wildner e Lúcio Ribeiro.
Música bixiguenta do Ano: “Coração, para quê se apaixonou...”
Pedido para 2006: Que não toque mais, em lugar nenhum, "Coração, para quê se apaixonou...”

7.12.05

AVE MARIA!


A irmã mais famosa de Nara Leão no clássico Terra em Transe.


Em uma ocasião boêmica, Maria tira onda de seu maior hit no Rio, cantando com força: "Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire!"
*
No meu aniversário em agosto, ganhei de presente do Comendador “O Diário de Antônio Maria”. Até então, de Antônio Maria só conhecia os frevos (“Sou do Recife com orgulho e com saudade...”, “Ô, ô, ô, saudade, saudade tão grande...”, “Ai que saudade tenho do meu Recife, da minha gente que ficou por lá...”), a canção-mor de fossa (“Ninguém me ama”) e a fama de boêmio e amigo da nata carioca. Pois bem, lendo “O Diário de Antônio Maria" aprendi que existem três tipos de bebedores, os que bebem, os boêmios e os pé-na-jaca, onde Maria enquadrava-se até à morte, exatamente por isso, aos 43 anos. Pois bem, graças ao presente do Comendador, estou viciada em AM. Já comprei e li o segundo livro de crônicas, "Seja Feliz e Faça os Outros Felizes", cujo primeiro texto provoca muita gargalhada. Agora embarco no terceiro, "Benditas sejam as moças". Maria, assim como outra paixão literária, o também pernambucano-que-viveu-no-Rio Nelson Rodrigues, descrevia com perspicácia e bom humor vários níveis das relações humanas. O nome do cronista vem sendo citado, nestas últimas semanas, nos cadernos de cultura por conta do lançamento da biografia de Danuza Leão. A jornalista narra a paixão pelo empregado de seu marido, Samuel Wainer, chefão do Última Hora, onde o jornalista-compositor criou algumas de suas melhores crônicas (em “Benditas sejam as moças” há passagens em que podemos identificar o romance). Outras seguem a linha cômica, como na que argumenta contra o suicídio de um rapaz que se matou porque era feio. Aqui está o segundo parágrafo desse texto: “Dedico esta crônica a todos os homens feios do Brasil. Sendo um deles, posso falar com autoridade, em nome da classe. Fiquem certos, colegas, de que não há nada mais sem graça que homem bonito. São chatíssimos. Os verdadeiros canastrões da vida real! As mulheres já não os suportam e se bandeiam, aflitas, para nós, que somos confortavelmente feios, encantadoramente feios, venturosamente feios. Ai de nós, se não fosse a bobagem dos rapazes bonitos! Não se cuidam, colegas. Ou melhor, cuidar, cuidam do cabelo, do colarinho, da gravata, do terno e dos borzeguinhos. Feito tudo isso, acham que já cumpriram todos os seus deveres para com a Humanidade e Deus”. Por estas e outras: obrigada, Comendador, e aproveito para desejar-lhe, no dia do seu niver, uma vida tão intensa quanto a de nosso ídolo, mas se possível afastando sempre o pé da jaca.

1.12.05

SE LIGA NOS TESOUREIROS, HELENINHA!


O jovem Dirceu, quando ainda era considerado "mocinho".
*
O bom desses acontecimentos políticos polêmicos que ganham ecos em toda a nação é que as pessoas lembram que existe uma coisa chamada política e que dela dependemos. A partir desse clima de velada euforia, começam a surgir nos botecos as “opiniões de boteco”, ou seja, as análises gabaritadas de gente que num estalar de dedos virou especialista em questões públicas, partidos, políticos e gestões. Mas, como diria Odete, o buraco é mais embaixo, e ninguém sabe onde termina. Estou evitando falar sobre essa cachorrada toda, porque como em toda cachorrada, os cachorros não têm razão e você pode sair mordido. Em suma, não adianta acusar nem defender com veemência. Não vou me colocar na lista dos intelectuais de esquerda que estão em silêncio, como prega semanalmente Arnaldo Jabor, porque não sou intelectual e não existe mais “esquerda” nem “direita”. Principalmente agora. O único sentimento que me toma conta é a desesperança. Sim, achei que Lula e o PT fossem salvar, ou mínimo, dar uma gota de dignidade a, pelo menos, boa parte deste país. Mas logo nos dias iniciais da nova administração, notei os primeiros sinais do getulismo de Inácio, que se não estava fazendo um governo dos sonhos, pelo menos, não estava envergonhando seus eleitores. Até então. Corta a cena. Como diria o próprio, “deixa eu te contar uma pequena história, amigo” (com a voz esgarçada de Lula): No início dos anos 1990, fiz parte do DCE da UFPE, e saí seis meses depois, primeiro porque aquele que não fosse de partido (PT ou PC do B) não tinha voz no diretório. Segundo, porque o tesoureiro estava envolvido em desvios de verbas da carteira de estudante. O fato saiu nos jornais por um período e logo depois foi esquecido. Prontamente saí da roubada. O cara continuou no partido, acobertado por alguns partidários e políticos (e o dinheiro?). Corta a cena. Há sete meses atrás, no primeiro dia da aula de bateria, cheguei ao estúdio, que fica ao lado da sede do P-Sol estadual, e na frente estava um grupo reunido. O ex-tesoureiro do diretório estava lá e ficou todo errado quando falei com ele. Deve ter lembrado da vergonha que passou diante de nós ao ver seu nome nos jornais. Pois bem, por ter acreditado em alguma coisa qualquer ligada à política, chorei em 1989, em 1994, em 1998, em 2002. Mas, como diria Jorge Benjor, chorava todo mundo, mas agora ninguém chora mais.