UNIVERSO DAS COISINHAS

29.8.06

CESARYANA



12:00 - Dez de agosto. Ganhamos as ruas do Recife para dar conta dos últimos preparativos para a chegada do rapaz acima (que estava prevista para o dia 23). 18:17 - Finalmente retornamos à nossa mansão. 19:08 - Ainda tivemos disposição para ver um filme... Siryana, ou Syriana, ou Siriana ou... 20:14 - Largo o Traffic dos Pobres. 20:15 - Yellow resiste. 22:01 - O futuro pai sai para entregar a cópia na SMS. 22:29 - Cansada que só a bexiga, me arrependo do corre-corre do dia ("Não posso mais me cansar assim, tenho que estar disposta. Imagina se o menino resolve nascer hoje, não vou ter força para segurar a onda de um parto normal"). 22:32 - Preparada para dormir, vou dar a mijadinha básica das grávidas, aí sinto um líquido quente saindo. 22:34 - Olho entre as pernas, vejo o sangueiro (A bolsa tinha rompido desde as 12:03, mas como a água saía de pouquinho em pouquinho durante todo o dia, e eu estava de absorvente, não sabia que se tratava do caso em questão). 23:27 - A médica no hospital diz, "Você não tem nenhum trabalho de parto, por isso, vai ter que ser cesariana". 23:29 - Não há vagas no hospital. 00:00 - Chegamos a outro hospital e o aguaceiro continua. 00:01 - É meu aniversário e eu não lembro. 01:48 - Cesária é uó, uó, uó. 02:35 - Nasce Calvin, lindo. Mais lindo e gostoso que George Clooney. Olha aí.

31.7.06

O RETORNO


Jor-El, o popular Joel, angustiado por não saber trocar fraldas, mandou o "bebê Johnson" pro espaço e este foi parar na porta de Tia May, que rechaçou: "A vaga de super-herói que ganha a vida trabalhando na imprensa já foi preenchida, meu filho. La-vra".
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Acordo às 4h30 da madruga do domingo e chego à conclusão de que, sim, eu gostei de Caché. Algumas horas antes, estava na dúvida do que realmente tinha achado do badalado filme de Michael Haneke, acho que pelo fato dele ficar meio maçante da metade pro final, por não ter superado as expectativas criadas pelas chamativas resenhas e, claro, pela assinatura do "homem que fez Funny Games". Essa inicial decepção até me gerou a vontade de encarar, como uma espécie de vingança e birra, o cinemão em curso, mais precisamente Superman - O Retorno, o qual não estava investindo muita fé e dinheiro. E não é que é bom?! Pra começar um mico, derramo algumas lágrimas saudosistas logo nos créditos iniciais (que homenageiam a primeira versão dos anos 1970) - convenhamos, fora isso, ainda tem o tema clássico de John Williams. Fortes emoções. Depois, a fala de Jor-El (Marlon Brando!). Mas não foi somente por esses "luxos" que aprovei a investida: Superman - O Retorno, que alguns podem considerar desnecessário, como o remake de A Profecia e O Poseidon, é honesto, bem dirigido e, a priori, apresenta à nova geração o Super-Herói à moda antiga. O filme tem tudo para uma boa sessão de "Multiplex": ritmo, aventura, efeitos especiais e... boas atuações (isso inclui os novatos Brandon Routh, rosto desenhado à mão, cara e jeito de bom moço, encorpado, à altura de Cristopher Reeve, e a "nova Lois Lane", que projeta seriedade, estilo, inteligência e charme, bem ao contrário da atriz anterior, aquela que era a cara de Courtney "Monica" Cox, além de Kevin Space, que empresta a Lex Luthor a vilania e a cafajestada, perfeitas na performance de Gene Hackman). Brian Singer acertou ao não inserir "músicas de gravadoras" como aconteceu com a trilha do Homem-Aranha, com hits de novas bandas, e optou pelo tom elegante dos temas instrumentais. Três defeitos de Superman - O Retorno: poderia ter 23 minutos a menos, o plano maligno de Lex Luthor não é plausível, ninguém acredita nele, muito menos na possibilidade de uma remota vitória sobre o Homem de Aço, o que acaba não gerando a tensão essencial a esse tipo de produção. Resumindo, esqueceram de incrementar o núcleo do mal.
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Voltando a Caché. O filme tem, pelos menos, duas grandes cenas, a de abertura e a do final. E a pergunta que não quer calar: Pierre era o "urso"? Por falar nisso, vou assistir ainda a Irmão Urso, pra ver se tira o gosto insosso de A Marcha dos Pinguins (esse povo que votou nesse filme como melhor documentário - categoria bem questionável - nunca assistiu a uma produção do Discovery Chanel ou matéria do Globo Repórter, não?!).
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P.S.: Essa minha farra cinematográfica, que incluiu os três títulos supracitados, deve-se ao fato de eu ter sido libertada, a contra-gosto, da reclusão a qual sofri nas últimas semanas por causa de Lost! A segunda temporada (piratosa) acabou, e a série só volta, a conta-gotas, em setembro, depois pára, e retorna em outubro. E que venha Rodrigo Santoro...

19.7.06


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Apesar de todos os projetos sociais dos governos que entram e saem, quem puder raciocinar um pouquinho sobre o tema "pobreza" chegará rapidamente à conclusão de que não tem projeto social que dê conta de tanta gente no mundo, que dê conta da alta taxa de natalidade do país, ou mais precisamente, dos países pobres. Este é um assunto que me atinge principal e diretamente agora, já que me encontro com um bucho que não é de chope. Os governantes, ou candidatos a, não gostam de discutir a azeda questão, pois entrariam nesse mói princípios religiosos, morais e blábláblá. Mas, mais do que isso, o que me intriga, pelo menos nos últimos meses, é como a população conseguiu e consegue crescer tanto, como o ser humano se multiplicou e se multiplica tanto, se para isso é preciso que haja mulheres dispostas a engravidar, ou melhor, a estarem em estado de gravidez. Digo isso porque, apesar de não ter tido o tradicional e indigesto enjôo das gestantes que, sozinho, já seria motivo suficiente para ninguém querer engravidar, começou em mim, com toda força, nas últimas semanas, uma sessão mija-mija, que não é brincadeira. É você estar no melhor do sono, sono profundo, sonhando, quando irrompe uma desagradável sensação de urgência na sua bexiga, que está sendo pressionada pelo peso do útero e pelos pontapés vindos de alguém que está ao lado dela. E, pior, você é inocente, não tomou a cachaça do mundo e nem bebeu um balde d'água para ter que encarar o processo de abrir os olhos, descobrir-se do lençol, tatear os chinelos, arrastar-se até o banheiro, levantar a tampa da bacia, sentar-se no troninho e ouvir a queda de um xixi que não encheria uma xícara de café de escritório. Isso, no mínimo, duas vezes por madrugada (sem contar que na volta à cama, muitas vezes você encontra a insônia deitada no seu travesseiro). Esse enfadonho despertar dos zumbis já seria razão o bastante para a população mundial estar reduzida à metade, na melhor das hipóteses. Mas o que acontece? O que bexiga (para não fugir do tema) se passa na cabeça das pessoas que tiveram dois, três, quatro filhos, como a minha mãe? Sem contar que essa sessão mija-mija é só a ponta de um lindo iceberg que se aproxima lentamente.
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P.S.: Ao comentar este assunto com um casal de amigos: a namorada disse que quando chegasse a sua vez de "embuchar" iria usar fralda geriátrica, pra poder dormir sossegada enquanto estiver fazendo xixi. Ele: "Tu acha que eu iria conseguir tirar essa cena da cabeça, tu de fralda geriátrica?! Comigo não!"

11.7.06


CAZÍ! CAZÍ! - Enquanto isso, na série B do Campeonato Brasileiro: "Velho (posso te chamar de velho?), a gente tá precisando de um cabeça-dura como você, que sabe cabecear como ninguém".
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Por mais incrível que isso possa parecer, houve uma época em que eu joguei basquete. Menor do que os 1,60 m de hoje, a pirralha fazia parte da equipe "basqueteira" do colégio, isso entre a 5ª e a 7ª série. Num desses anos, teve um campeonato entre escolas públicas e particulares e um dos jogos foi naquele colégio que fica na Praça do Entroncamento (esqueci o nome). E lá fomos as suburbanas competir com as "urbanas" (?). Eu estava marcando uma menina (menina é modo de dizer), que era duas vezes o meu tamanho, isso em altura e largura. A mala passou o jogo inteiro me esculhambando com os mais nobres palavrões lançados até então. Eu não conseguia formar nenhuma palavra ou frase em reação, só continuava a marcar o trambolho, e rezando para não levar um provável murro na cara. Quando a partida terminou, dei graças a Deus por ter saído viva e quase fiz uma promessa pra nunca mais encarar um peso pesado daquele. Mas o que hoje, talvez, me enchesse de orgulho nesse prosaico episódio teria sido mesmo um bofete bem dado naquela bendita. *** Dizem que Zidane estava chorando e lamentando nos bastidores a cabeçada no Materazzi. Mas creio que o macho dentro do careca teria se remoído muito mais se não tivesse revidado a agressão verbal do italiano. No domingo, eu era Itália desde criancinha. No entanto, a provocação do Materazii foi de uma baixeza atroz que apagou boa parte do brilho de uma vitória honrada. Enquanto isso, o mundo inteiro caiu em cima da "tourada" do craque da França, sem colocar na balança que futebol é um esporte violento. O corpo-a-corpo, o esforço físico, aliado ao estresse da pressão por um bom resultado, são testes cruéis para a natureza humana. Portanto, esperar reações zen-budistas talvez seja pedir demais para alguém, mesmo um veterano, e também até uma espécie de cinismo por parte da mídia, que preza bastante a audiência que alcança quando o circo pega fogo. Não adianta exigir ponderação, porque o ser humano vai atender, primeiro, ao instinto animal, já que tudo ali em volta depende de sua força, da superação de seu corpo contra o do outro. Se em qualquer pelada acontecem os mais diversos bate-bocas e safanões, reforce a isso o fato de ser uma final de Copa do Mundo. Falaram que o gesto de Zidane ofuscou sua aposentadoria apoteótica. Conversa fiada! Em termos teatrais, o personagem Zizi (!) "despediu-se" com uma presença cênica impressionante. Levar o inesperado cartão vermelho, sair arrasado, vaiado e cabisbaixo do estádio completamente lotado, cercado por câmeras de todo o planeta, foi a melhor saída de cena que ele poderia ter tido, e que qualquer cineasta pagaria para ter orquestrado. Zidane teve sua despedida memorável. Se não foi aplaudido por aqueles milhões de turistas bem-nascidos, isso é o mínimo diante do seu feito e currículo. Esse pequeno momento da final vai entrar pra história de forma muito mais marcante que uma saraivada de palmas já esperadas e ensaiadas. E, no futuro, Materazzi, o mala provocador, vai ser lembrado como o "jogador que levou a cabeçada de Zidane, naquela copa em que o Brasil era o favorito". Este, sim, saiu humilhado. CPI da CBF já!
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P.S.: Os nerds não perdem tempo e já criaram o jogo "Cabeçada do Zizou".

30.6.06

ISSO É UM IMBECIL!!!


Essa risadagem vai acabar! Revanche vem do francês.
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Sorria! A Argentina vai voltar mais cedo pra casa.
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Agora pouco, me juntei a uns 15 transeuntes que pararam de frente a uma pequena TV de uma barraquinha de ponto de ônibus pra ver os pênaltis no jogo dos nossos vizinhos contra os alemães. E a comemoração do resultado, que incluiu fogos de artifícios por todo o Cordeiro (que ainda estou ouvindo), só não está sendo maior porque não foi o Brasil quem despachou os hermanos abusados.
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Quando o Fatnômeno deu o fora em Lula não estava dando um fora no Seu Zé da Esquina, era o Presidente da República, ora bexiga! A fama e o dinheiro, associada à esculhambação da política é tamanha, que um jogador de futebol se acha no direito "de tirar uma onda" com a cara da pessoa, a priori, mais importante da Nação. Comentando isso com Yellow, este fez uma análise óbvia, evidente, mas que ninguém, nem a imprensa, havia elaborado. Numa simples abordagem sócio-psicológica, explica-se que o salário do jogador, trilhões de vezes maior do que o do presidente, talvez tenha permitido a Ronaldo o passe para renovar aquela pergunta "Você sabe com quem estava falando?" para "Você sabe que quem está falando ganha muito mais do que você?". Tirando todo o complexo da questão, que envolve também as denúncias de corrupção no governo e no PT, aproveito pra lançar esse mesmo raciocínio yellowniano sobre o "caso Parreira". O técnico é o cara que menos ganha entre os protagonistas da Seleção. Então isso poderia explicar a teimosia em manter criaturas que não somente não estão rendendo, como estão atrapalhando e muito, como Cafu.
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E, por falar neste, lembro de um episódio que aconteceu em 1998, quando, trabalhando num caderno de esporte local, fui escalada pra entrevistar o jogador, que encontrava-se de férias num hotel chiquérrimo daqui, durante a ressaca da Copa da França. Chego lá, espero um tempo até falar com o capitão. Inicialmente, seria uma entrevista exclusiva, na qual eu não poderia tocar no assunto "a amarelada de Ronaldo" (claro que eu toquei). Antes disso, no caminho até o hotel, vou conversando com o motorista sobre o mundial recém-acabado. Aí, o fotógrafo, que estava no banco de trás, dizia, "não vi jogo nenhum, não sei nem de quem vocês estão falando". E eu, descrente: "Que conversa, Fulano!". Esse fotógrafo tem a maior cara de Tiozão da Torcida, daqueles que enfartam até vendo treino de time. Pois bem, chegando ao hotel, nos avisam que Cafu estava na praia. Fomos lá. Da areia, ao lado de Regina ("Te amo, Reginaaa!!!"), avisto três jet-skis no mar. Num deles, estava o craque. Aproveito e sugiro ao tal fotógrafo, "Tira uma foto de Cafu no jet-ski". Aí, o cidadão ajeita a máquina, a lente, vai se aproximando da beira do mar no momento em que os três pilotos dos jet skis estão parando a brincadeira e voltando pra praia. Uma pequena multidão observava a estrela do futebol. O fotógrafo, então, aponta a câmera pra seu alvo, mas, de repente, olha pra trás e pergunta, em volume bem alto, pra mim: "Débora, quem é Cafu?!" Eu, sem saber onde enfiar a cara, respondo: "É o do meio!!!" Parecia mentira, mas ele realmente não tinha visto nenhum dos jogos da Seleção, não conhecia os jogadores, não gostava de futebol, apesar da cara de Tiozão da Torcida, e, muito menos, sabia quem era Cafu. Enfim, era uma pessoa feliz. Aproveito o momento e pergunto: Quem é Parreira?! Segundo meu sogro, aos gritos, "Isso é um imbecil!!!
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P.S.: Aproveito e peço ao Barreira, pra botar logo no começo da partida deste sábado, o melhor jogador da França na atualidade, o nosso eterno rubro-negro.

15.6.06

NÓS TIVEMOS UMA OPÇÃO


Kaká, "Lindo, tesão, bonito e gostosão" ou "You're beautiful, you're beautiful, you're beautiful..."
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Alguém pode fazer um favor pra mim, ou melhor, pra humanidade, e matar o cara que canta essa música You’re Beautiful? Quando a gente vai se recuperando da lavagem cerebral proporcionada por coisas com Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai (O Melô do HR) ou Eu não sei parar de te olhar, nos aparece esse Geraldinho Azevedo (pela voz de arara e pelo conteúdo – “eu digo e ela não acredita, ela é bonita...”) com o refrão mais irritante do ano, que eu não quero nem mais repetir aqui.
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Pode testar: numa rápida pesquisa com seus amigos, parentes e conhecidos, você vai chegar à conclusão de que (quase) ninguém está satisfeito com o trabalho: nem com o que faz nem com o ambiente muito menos com o salário. Acho que, neste momento, entre os brasileiros, só existe uma minoria muito satisfeita com o emprego que tem: a seleção e a equipe técnica.
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"Como é que eu posso ler se eu não consigo concentrar minha atenção? Se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho é a Seleção?". É nessas horas que Raul Seixas faz muita falta.
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Por que em toda Copa a Seleção Brasileira sempre é essa mesma novela? Aliás, Copa deixou de ser copa. O troféu há tempos abandonou o formato de copo para o formato de globo.
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Quando, afinal, Ronaldinho vai parar com esse stage fright?
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Zagagá-llo tá se achando só porque “previu” que o craque da seleção seria Kaká, o bom-moço, bom vizinho, bom marido, bom pai, bom filho, bom espírito santo. Até meu filho, da minha barriga, já tinha sacado isso.
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Por falar nele, o meu filho, a barriga tá grande e eu não posso fazer uma das duas coisas que há de melhor em assistir aos jogos da Seleção: beber. A outra, ainda posso: falar palavrão.
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Diogo Monteiro, mais conhecido como Siri, aconselhou, por volta do quarto episódio: "Você ainda tem uma opção". Mas Yellow (e eu) não quis ouvir e agora estamos viciados em Lost. A coisa tá tão séria que, na semana passada, quando terminou um episódio em um momento decisivo, eu disse, "bota o outro logo". Aí Yellow: "acabaram os episódios que eu gravei" (a gente tava vendo no computador). Ligo pra SMS: "Tem Lost aí?". Depois de saber que a locadora tinha disponível a série, lembro de outra saída bem mais rápida. "Liga pra Bosco agora!". Isso por volta das 21h. - "Bosco, é uma emergência. Tu tem a primeira temporada de Lost? (a gente tava no capítulo que o doido da selva vai pegar a grávida e o drogado)". Yellow pega a bicicleta e parte rumo à casa do vizinho que mora do outro lado da Caxangá. Na volta, no elevador, uma moradora do prédio diz pra ele, "acabei de ser assaltada" - Yellow tinha passado no mesmo local há dois minutos. Recife é um Lost que não tem fim.
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Tudo bem, eu sei que Lost é uma mistura de Perdidos no Espaço e Twin Peaks com Big Brother Brasil (a forma como os personagens aparecem, a "edição" semelhante a desses programas de TV), e que qualquer pergunta, qual é o seu nome?, por exemplo, nunca é respondida e vira motivo para mais um suspense, mas esse é o segredo do seriado.
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Três semanas antes de embarcar neste vício, encontro, na supracitada SMS, com um leitor deste blog, a quem vou chamar de Rodrigo Carreiro para não revelar sua verdadeira identidade. Entre a conversa, que envolvia cinema, filhos e afazeres domésticos, o amigo conta, sem vergonha alguma, que, durante esta segunda temporada, deixa o computador baixando o episódio da noite anterior, e de manhã, antes de sair pro trabalho, assiste ao episódio downloadado. Isso porque não consegue esperar para quando voltar. Há duas semanas atrás, achei exagero. Como diria Siri, nós tivemos uma opção.

1.6.06

I SEE DEAD DOGS


Bergman, pelo conjunto da obra, ganha comovente homenagem no Recife.
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Segunda-feira, fui almoçar com um amigo. No meio da refeição, ele questiona: “Você não foi mais lá em casa por causa de Bergman, né?” Eu: “Nã-ã-ã-o”, com vergonha de dizer que sim e contar toda a verdade e que começa com a frase: “Esse povo que tem cachorro é muito sem noção”. Há oito meses, esse amigo cria o cão que leva o nome do autor de Fanny e Alexander, Morangos Silvestres e Persona. Mas ao contrário do cineasta cool, o animal vive com o diabo no couro. É daquele tipo que se avista uma visita na sala, endoida, corre, pula, se joga, dá cambalhotas, lambe, late, se esfrega, deita, rola e não se finge de morto. Ingmar Bergman é lindo, não o véio, o cão. Mas não tenho paciência para essas lambidas e essas demonstrações de afeto canino, ainda mais quando se sabe que um carinho desses pode custar uma conta caríssima na farmácia (toda semana, o Diario aborda uma doença transmitida por cachorro. Na última edição, falou-se em leptospirose, sim, a doença do rato). E o pior é que o dono do bicho acha tudo lindo. Esse abuso dessas pequenas criaturas possivelmente ganhou corpo na minha infância, depois que levei uma carreira de dois furiosos bulldogs e só escapei porque consegui chegar a tempo no portão de casa e subi-lo até ficar sentada no muro, me refazendo do provável enfarte aos oito anos de idade. Só mais tarde, vim descobrir que um “Valei-me, São Roque” pode nos afastar de uma mordida dessas feras. E, por falar em raiva: na terça-feira, levei mais um susto, o quinto, com o cachorro de uma vizinha. Toda vez que passo na rua, esse nojento quase me mata dos "nelvos". E é sempre quando estou distraída. Dessa última vez, veio correndo e latindo forte, parecendo que ia pular o pequeno portão e avançar sobre mim e minha barriga (...). E eu nem estava com o guarda-chuva para poder travar uma luta com o bicho. Não entendo como uma pessoa cria um animal só para poder dar sustos nos transeuntes. Agora mesmo, passei pela rua transversal à minha e estava um dálmata na frente da casa, sem o dono e sem a coleira, só observando o movimento, como aquelas velhinhas de cidade do interior. Assim, sem noção à altura dessas pessoas, só mesmo Rodrigo, o dono do estúdio de ensaio. A primeira vez que fui lá quase desmaio. Simplesmente, o cãozinho dele, um pit-bull veio recepcionar os clientes, dando um pequeno salto sobre nós. Felizmente a única marca que conseguia deixar era as das patas sujas. Rodrigo só parou com essa brincadeira, que terminava com a frase “É uma pit-bull, mas é dócil”, quando eu disse, meio que na brincadeira, que ele poderia ser processado e ter que pagar uma fortuna à uma vítima da cachorra. Depois disso, a cadela passou a ficar boa parte do tempo presa. No último sábado, na Rua do Príncipe, lá vai o rapaz, cabelos loiros soltos ao vento, andando inclinado pra trás na tentativa de conter a cachorra em sua caminhada hostil. Isso, sem a focinheira. Ainda na terça-feira, recebo uma ligação do amigo do início do texto. “Débora, cachorros vêem fenômenos sobrenaturais?”. - “Sim”, respondo com suposta autoridade. Depois dele explicar o acontecido, chegamos à conclusão de que, sim, o “Haley Joel Osment dos bichos” realmente estava vendo “algo”. Talvez, o cãozinho estivesse diante do espectro do avô falecido e por isso os latidos voltados para o vazio, que não o deixava ultrapassar o local onde fixava o olhar. Medo. O certo é que Bergman, com esse “momento Sexto Sentido ou Sétimo Selo”, parece agora fazer jus ao nome. Ah, esqueci de contar as histórias de Pluto, o animalzinho de estimação que, na calada da noite, entrou furtivamente e distribuiu bosta por toda sala do meu ex-apartamento. Ah, e também de Raio! Este residia em Campo Grande. Na lua cheia, quando o infeliz latia bem alto, isso próximo à janela do meu quarto, na antiga casa da minha mãe, só se escutavam os gritos insanos da dona: “CALA A BOCA, RAAAIO!!!”, e o cachorro, sem obedecer a ordem, “AUUUUUU”. Só faltava Zé Ramalho com “Mistérios da meia-noite...”

23.5.06

OS MUTANTES MUTARAM


Exemplo para os brasileiros: Morrissey cruzou as pernas, sacodiu o topete, arqueou a sobrancelha e disse, "um revival dos Smiths seria como voltar para a casa dos pais. Eu prefiro comer os próprios testículos" - quando se lembrou de que alguns fãs já os tinham levado desde 1988.
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Há uma semana escrevi um texto relatando um pequeno episódio de violência presenciado na Madalena e que acabou em morte, e até saiu nos jornais e, como tal, já datou. Portanto, aqui segue outro texto, mais fresquinho e mais fresco: a separação de Paul McCartney. Eu sei que Paul tá lá na puta que o pariu e nem desconfia da minha radiante existência e minha inócua preocupação a respeito dele, mas gostaria de dizer que torço por você, Paul. Como todos sabem, o nosso Sir comeu o pão amassado pelo Cão quando Linda partiu desta. Segundo Heather, de quem ele se separa agora, o homem passou seis meses chorando, dia e noite (apesar do bafafá em torno de John e Yoko, Paul e Linda eram muito mais casal 20 do que os primeiros. Sempre estiveram juntos, enquanto os mais badalados chegaram a se separar e até a se aventurar com outras pessoas). Paul argumentou, há uma semana, que a separação de Heather foi motivada pela invasão de privacidade da imprensa. Nos poupe, Pou. Isso aconteceu muito mais na época de Linda, e, mesmo assim, foram 30 anos colados. O que você deveria ter feito era ter desconfiado do fato de Heather ter dito que nunca tinha escutado Beatles. Nos poupe, mais uma vez. Aonde essa mulher estava? O mesmo caso se deu com John. Yoko, quando conheceu o nosso João Lemos, jurou que nunca tinha escutado Beatles. Talvez isso explique o fato dessas mulheres terem conseguido manter um relacionamento com John Lennon e Paul McCartney e não terem tido um ataque histérico a cada manhã. O certo agora é que nosso Macca está só - como diriam os jornais, “está solteiro”. Mas nós sabemos que não se trata mais daquele garotinho genial dos anos sessenta, Paul agora passa dos sessenta e será, daqui a poucos anos, um velhinho, e não há botox, cirurgia plástica, tintura ou cremes mirabolantes que possam dizer o contrário. Vamos torcer para que esse rapaz encontre alguém que lhe inspire e que, no meio da noite, segure sua mão.
***
Convenhamos, se o mundo conseguiu sobreviver a uma não “volta” dos Beatles, pode passar muito bem sem a dos Mutantes, não é? Essa história do show revival é, convenhamos, mais uma vez, uma palhaçada, principalmente pelo “elemento Zélia Duncan”. Como todos sabem, Zélia Duncan pode ser gente-fina e tal, mas é uma chata no palco, em disco, em DVD e fita-cassete. A graça do grupo era Rita Lee, que, no auge da juventude e da beleza, transpirava, com ar inglês, o comportamento, o estilo, a aura dos anos sessenta. Arnaldo Baptista poderia ser o gênio, mas Rita Lee (que ainda garotinha conseguiu ficar cara a cara com o ex-beatle supracitado e desquitado) tinha o talento, o humor, o carisma necessário para dar credibilidade àquelas músicas. Vejamos o caso de Fernanda Takai. Quando o Pato Fu era uma coisa meio Mutantes e não Super Furry Animals, a mulher do John brasileiro não conseguia interpretar com escracho as canções, sendo apenas bonitinha, fofinha, com sua voz aveludada e jeito de menina. Pois bem, pelo que soube nos jornais, Beck e David Bowie reservaram vaga nesse show da “volta dos Mutantes” e é bom que alguém os avise que vão encontrar pela frente um pedante, uma insossa e um doido. Tive a felicidade e a infelicidade de entrevistar Arnaldo Baptista para o show que ele fez com Lobão no Abril Pro Rock, em 2001 (acho). E foi muito triste falar com uma pessoa praticamente incapacitada. Quase tudo o que eu perguntava, ele interrompia para buscar a resposta ou a opinião da esposa, que parecia ser mais louca do que ele (vamos nos lembrar que Arnaldo terminou de endoidar a partir de uma tentativa de suicídio, praticada depois que Rita pediu o divórcio. Ela partiu para uma bem-sucedida carreira-solo, achando graça demais no que fazia e enchendo o nosso saco com coisas como “Baila Comigo” e “Amor é Prosa, Sexo é Poesia”, e dando uma de Mick Jagger no palco, e ele...). Essa história de revival dos Mutantes poderia até passar em branco, se os Mutantes não fosse a melhor banda de rock que o Brasil já teve. Isso me lembrou agora a Cachorro Grande e sua tentativa de soar “de fora”. Por exemplo, essa música Sinceramente, que está tocando na MTV, apesar de pretender ser beatleniana, tá mais pra Guilherme Arantes. E quer saber? Eu sou mais Guilherme Arantes do que a Cachorro Grande! “Pegar carona nessa cauda do cometa, ver a via-Láctea, estrada tão bonita...”

8.5.06


Todas, um dia, serão loiras.
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Com tantas bandas e músicas lançadas a cada segundo, não sei qual o problema dos disc jóqueis brasileiros com Sacrifice, de Elton John. Quase toda semana nos ônibus escuto o hit de 1900 e... Isso em, pelo menos, três de cinco viagens de coletivo, Elton ta lá “Cold, cold heart, hard done by you”. Quando não é isto, é Sultans of Swing ou Girl, You’ll be a woman soon. Puta que o pariu. Qual o sentido das rádios?
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Você acredita no novo disco do Mombojó? O primeiro comprei na loja, fazendo o maior gosto, botando a maior fé, acreditando no hype. Escutei uma vez, outra, tentei me matar, aí parei. Então quando leio que o grupo está lançado novo disco e é o que há de melhor na nova geração da música pernambucana, penso nos bons tempos em que Luiz Gonzaga e Alceu Valença estavam vivos.
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Por falar nisso, dia desses, Gugu, o ex-queridinho do Sílvio, reprisou pela septuagésima sétima vez a aparição dos Mamonas Assassinas em seu programa, aquela em que eles aparecem vestidos de presidiários. O que nos leva a ponderar que se uma pessoa só dispõe de um canal aberto numa tarde de domingo tem todo o direito de enfiar uma bala na cabeça de Gugu (ou na própria) no momento em que se passa pela septuagésima sétima vez uma reprise dos Mamonas Assassinas, apesar dos Mamonas Assassinas terem sido infinitamente superior ao rock nacional que está sendo feito na atualidade, e isso inclui e começa com Dinho Ouro Preto, o que nos leva a ponderar mais uma vez sobre happiness ser uma warm gun.
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Por falar em rock nacional, a MTV. Ultimamente voltei a assistir o canal e o que vejo? Uma banda com um cara que é a cara de Theddy Alguma Coisa, do Nenhum de Nós, fazendo uma versão meio ska fofa-bosta para Minha Menina, de Jorge Ben, no momento em que o mundo não precisa de mais uma versão de Minha Menina.
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Por falar nisso, nunca mais fui pras festinhas descoladas, principalmente as de Olinda, então, por favor, alguém pode dizer se ainda insistem em botar Minha Menina, versão do autor, pra tocar?
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Por falar em MTV, o que são aquelas duas VJs assanhadas (de cabelo assanhado mesmo) que apresentam o Disk MTV?! E com três programas vistos, já posso dizer que não agüento mais olhar pra cara da filha de Marina Person. Aí, se alguém pergunta, “por onde anda Fábio Massari?”, corre o risco de ser chamado de saudosista ou de velho metido.
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Parece que o destino de toda mulher é ser mesmo loira. Na TV, vemos que da finada ruiva Rita Hayworth a ex-castanho escuro Madonna todas “são”. Recentemente, as morenas Glória e Cléo Pires entraram na lista. Carolina Dieckman está quase de cabelo branco, Beyoncé segue loiríssima, e Mariah Carey, com os peitos não cabendo mais nos decotes, continua a não saber se é morena ou loira. Enquanto isso, conto os dias para dar holofotes no meu cabelo e angariar os louros.
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Por falar em Madonna, alguém sabe dizer se tinha alguma alma penada na tenda onde Seu Jorge fez o show no Coachella? Pelo que sei, o “homem que não sabe parar de te olhar” tocou no mesmo horário da diva. Por mais que Seu Jorge tenha nos decepcionado nos últimos anos, ele, nem ninguém, merece isso.
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“O cu da mãe...”, canta Cindy Lauper em...
http://cognatas.dromma.org/
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Aí, comprei no Carrefour um documentário sobre o White Stripes por R$ 9,90. Quando coloco no DVD, vejo o aviso: “Este documentário não foi autorizado pela banda, nem pela gravadora e nem tem músicas do White Stripes”. O bom é que eu tinha comprado, pelo mesmo preço, um outro documentário sobre Bruce Springsteen! E quando fui assistir vejo o mesmo aviso nos créditos iniciais! Não é ótimo?!

24.4.06

V DE VIZINHOS, VINÍCIUS, VALDEVINO E VALDEMAR


Carequinha: "Vivi, véio, vamo nos vingar do vuco-vuco dos vizinhos!" V: "Vem, vaidosa vagalume virginal! Vamos sem vagabundice e vacilo, vaiar as vicissitudes vis da vida!"
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Se a vingança é um prato que se come frio, o meu está gelado. Explico agora o tema azêdo “vingança” (não por conta do filme produzido pelos superestimados irmãos Matrix): que sentimentos permeariam seu doce coração se o vizinho do andar superior produzisse recorrentes e intermináveis barulhos em horas inconvenientes, como a suave manhã de um feriado? Pois bem, sexta-feira pela manhã (era um feriado, pelo amor de Deus!!!), gastei alguns neurônios pensando em formas de "dar o troco" à bendita Família do Quinto Andar, após o despertar dos infernos. Vou descrever o ambiente, moro numa rua onde a maior zoada que se ouve é a dos angelicais bem-te-vis e os gritos histéricos das pirralhas trigêmeas da casa em frente ao edifício – mas isso bem distante. Nesse cenário árcade, esse núcleo familiar headbanger vem tocando o terror todo dia nos vizinhos do andar debaixo. A começar pelo filho do casal, que só anda correndo pela casa, repito, só anda correndo pela casa. O menino deve brincar com o bojão de gás – imagine o barulho que um bojão de gás faria se conseguisse quicar como uma bola de basquete. Acredite, é isso aí. Em seguida, vem a mãe. A mulher usa salto alto a partir das seis da matina, isso todo dia. Toc, toc, toc pra lá e toc, toc, toc pra cá. Marinho, meu irmão, que certa vez teve o privilégio de ser acordado lá em casa por esses sons, questionou: tem certeza de que não são fantasmas? Yellow teve medo de perguntar ao porteiro e obter uma resposta tipo: “Bem, desde aquela tragédia...”. Para exemplificar melhor, os barulhos são parecidos com os do filme Água Negra, remake de Walter Sales ou Salles. Medo. Mas depois daquela sexta, 21 de abril, tenho certeza de que ali está funcionando uma mercearia e o Gepetto que mora lá deve estar concebendo o Pinóquio 2006. Vamos aguardar. Em meio a tanta alteração sonora, conseguimos assistir Vinícius. O documentário, bem elogiado pela crítica, só peca pelas costumeiras invencionices pseudo-artísticas do cinema brasileiro, como a dispensável declamação de poemas feita por atores afetados quebrando o clima da narrativa. Tirando isso, um dos melhores trechos é aquele em que Vinicius, com o copo de uísque na mão (Sim...), canta (esqueci a música), com a cabeça deitada no ombro de Tom, enquanto este toca violão. Não precisa dizer que os dois estão hiper-mega-superbêbados. O filme, aliás, é a maior concentração de papudinhos por metro de película na história dos documentários (a lista começa com o próprio poeta-compositor e segue com Chico Buarque, Baden Powell, Tom Jobim, Toquinho...). Depois de vermos o filme sobre o cara que agarrou todas as mulheres que pôde e as que não pôde (mesmo!), assistimos a “Virgem de 40 anos”, que é bonzinho, mas não tão engraçado quanto Vinícius - e boa parte da diversão de Vinícius está na tecla “avançar” do seu controle remoto, quando aparece Camila Morgado, a Virgem da Paixão de Cristo, fazendo o maldito recital. E por falar em vingança, ao contrário do que despejou boa parte da crítica sobre a velha conversa "transposição de HQ para a telona", "ideologia x indústria do cinema", V de Vingança é ótimo! O que também não quer dizer que os irmãos Matrix sejam geniais por terem produzido o filme, e muito menos dirigido ...Matrix! Um dia, todos vão descobrir e aceitar que Matrix é um engodo! (Vou comer esse prato bem gelado, pelo andar da carruagem...).
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P.S.: Tive um vizinho que se chamava Valdemar, Seu Valdemar. O homem queria porque queria ter um filho homem, pra colocar um nome que começasse com V. Aí teve o primeiro: foi menina. Vânia. Depois vieram Viene, Valdênia, Valdelice, Valma, Vanda, até que ele teve um menino e finalmente pôde sossegar em paz e cumprir o antigo desejo. Aí botou no esperado rebento o tão afamado Wilson. Eu posso com wilson?

12.4.06

RECIFE CALLING


Mick: "Bora de buzão mesmo, véi!". Joe: "Tu tem R$ 1,65 que me empreste?" Mick: "E num baixou, não, foi?!"
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Nas últimas semanas aconteceram fatos dignos de registro, a final do campeonato pernambucano (i was there!!!), o abobalhado astronauta brasileiro, as intervenções plásticas de Sônia Braga e Nicole Kidman, a revogação da lei do primeiro emprego francês, a assassina canastrona na Globo, a (possível) vinda do Radiohead ao Tim Festival e Enéas sem barba. No entanto, nada foi mais chocante do que o caso do homem que foi preso, dentro do avião prestes a decolar para Londres, porque o taxista que o levou até ao aeroporto o denunciou de terrorismo. Tudo porque o rapaz estava ouvindo durante o trajeto The Clash (!). Esta é mais uma prova de que as maletices dos taxistas não estão restritas apenas ao limite territorial brasileiro e não estão próximas de acabar. Aqui no Brasil, como se sabe, costuma-se pegar táxi em última instância, só para tirar a mãe da forca. Aí, mesmo pressupondo isto, quando você entra, informa o trajeto, o cidadão no volante acha que você está ali para passear e conhecer as belezas naturais de uma Conde da Boa Vista, de uma Agamenon Magalhães, além de querer saber a opinião dele sobre futebol, política, violência urbana e mudanças climáticas. Certa vez, fui levar Dona Cema, minha tia-avó, para fazer curativo, e tive a oportunidade de me deparar com um peso-pesado desses. O cidadão, achando que eu estava desejando realizar um tour pela cidade, às 20h30, acompanhada de uma simpática e doente velhinha, não deixou o marcador ultrapassar os 40 km. Avistando ao longe o semáforo verde, o mala, que usava um chapéu de cowboy (eu juro), regrediu ainda mais, chegando a 20 km. Quando estava prestes a passar o amarelo, ufa, deu uma freada brusca e esperou o sinal fechar. “Por que o senhor parou?” – “Porque o sinal estava fechado”. Eu: “Estava não. O senhor esperou que ele fechasse”. – “A senhora está muito estressada!” A cliente estressada: “Por favor, pare o carro ali que eu vou descer. E quanto foi a corrida?” Ao pagar a conta, ele diz, “Não tenho troco”. Além de eu ter descido com Dona Cema, 80 e poucos e com Mal de Parkinson, sem a já dispensável ajuda do cavalheiro, ainda fui trocar o dinheiro para o cabra-safado. O mala, achando pouco, ficou me espreitando, talvez para ver em quanto tempo eu conseguiria pegar o próximo táxi, como se eu estivesse num filme rodado em Nova Iorque. Três minutos depois, estou no segundo. E o tal mala ainda ficou emparelhando na estrada, como que apostando corrida. Mal termino de contar a história para o outro taxista, vejo que o taxímetro deste, que estava em cinco reais, no início da corrida, não fora zerado. Ou seja: quem pode com isso? Esta outra aconteceu em 1900 e alguma coisa. Uma amiga voltava de uma farra, ainda sob o efeito do álcool e da festa, fazendo algazarra dentro do táxi com outras amigas, quando o motorista não mais que de repente solta: “Desce”. Elas, “Hã?!”. – “Desce tudinho”. E elas, mesmo argumentando, “Mas, moço, mas moço...”, tiveram que descer. Era madrugada e se encontravam num dos bairros top ten da criminalidade no Recife, os que constam na lista da SDS como “assalto, seqüestro ou morte na certa”. Esta é para fechar: voltava para casa tarde da noite. Segundos após entrar no táxi, levei um susto: o sujeito trava todas as portas (se eu quisesse descer teria que pedir o grande favor a ele). Não deu dois minutos de trajeto, passamos por uma rua bem sinistra, aí o elemento começa: “Achei aqui ontem naquela calçada uma cartela com seis camisinhas novinhas. Elas estão aqui no porta-luvas”. Passada, gelada e com o sangue nos pés, cortei, “O senhor pára, que eu vou descer”. Falei isso, na rua seguinte, mais movimentada, para poder então pegar um outro...táxi. Com todos esses exemplos de bom comportamento dos taxistas no mundo, não é de se estranhar que o representante britânico da categoria fosse tentar salvar o mundo denunciando o pobre coitado do cliente que escutava The Clash... Aliás, esta história poderia render uma música. Punk.
P.S: Tenho uma desconfiança de que todo taxista é tricolor...

30.3.06

"AI, AI, AI", A "TÔ NEM AÍ" DE 2006


Vanessa, a Mata e o Motta (a propósito, de novo? Sai daê! Ôôxe!)
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Pedro Almodóvar revelou que uma das coisas que o faz se ressentir em ser famoso é não poder mais coletar no cotidiano das pessoas comuns idéias para seus filmes. “Ouvir uma conversa entre duas mulheres num ônibus e isso virar um mote para um diálogo em um roteiro”, exemplificou. Eu, se fosse depender desse expediente para sobreviver, estaria passando fome, pois, feliz ou infelizmente, tenho a incrível capacidade de me abstrair quando o assunto não me diz respeito e não me interessa. Nesta semana, aconteceu mais uma vez: entro no consultório médico e escuto uma perua com voz esganiçada e estridente, que obrigava a todos a prestar atenção na conversa. O assunto era daqueles, que, segundo Yellow, ele fica logo bêbado, mesmo que não esteja bebendo. Ela falava de assaltos e ainda dava dicas de como proceder, uma das sugestões: “passe o carro por cima, ao menor sinal de perigo (por “menor sinal de perigo” entenda-se, um rapaz preto, mal vestido e olhando pro lados)”. No período em que estivemos na ante-sala da médica, antes de fugirmos para tomar um café numa loja ali perto, a perua contou, pelo menos, uns 17 casos de assalto, que acometeram parentes, amigos e amantes. Prontamente, peguei um jornal e acionei o dispositivo contra “conversa fiada”. No entanto, quando a voz de Olívia Palito chegou a decibéis intoleráveis, dei um basta: está na hora de fugir. “Yellow, vamos sair, enquanto a médica não vem”. Na rua, ele, chocado, pergunta: tu escutou o que aquela mulher disse?!!! – Não, só tava ouvindo o som da voz. Ele: “Ela teve coragem de dizer que a família mandou matar o assaltante que matou o primo dela, e que, para recompensar a mãe do criminoso, dão uma cesta básica todo mês, como se fosse um gesto de caridade, porque o bandido “era arrimo de família””. Fiquei passada com a ousadia da grã-fina (tinha pinta de grã-fina) e com a competência do meu dispositivo “Desregistrator de Conversa Mole Tabajara”, e mais ainda, com o “coronelismo” que ainda reina em Pernambuco. Quando voltamos do café, olhei com uma cara de reprovação para a perua, e não sei se foi isso, ou um milagre, mas, pelo menos, ela baixou o volume, desistindo de colocar todos os (in)pacientes a par da sua “visão de mundo”.
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No último final de semana, assisti ao DVD do Fantástico, aquele já lançado há algum tempo. A minha sugestão é: veja. Não pelas reportagens de mil novecentos e antigamente, tipo, “o mistério da morte de Kennedy”, “o mistério das pirâmides”, “o mistério dos astronautas”, “o mistério das formigas”, quase todas do hoje ministro Hélio Costa e com edição que parecia ter sido feita por um sub-sub-Hitchcock. Por falar em Hitch, tem, inclusive, uma entrevista com ele. Mas o melhor do DVD é inegavelmente as entrevistas do finado colunista Ibrahim Sued. Imperdível. Tente não rir com o visual e o palavreado cafajeste. Parece uma brincadeira, um arremedo, mas era verdade. Parece Hélio de La Penha imitando repórter no Casseta & Planeta. Um brinde a Ibrahim Sued!
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Por falar em jornalista, neste fim de semana, um amigo me contou que aconteceu o seguinte caso: a redação está em sua hora mais agitada, os teclados a toda prova, os telefones tocando, os editores e repórteres arrancando os cabelos, aí irrompe alguém de um outro departamento, que não sei, e começa: “Pessoal”. Faz-se o silêncio. “Estou aqui para fazer uma solicitação às mulheres: não venham mais com blusas de alça e calças de cintura baixa, mostrando o cofrinho”. Rompe-se o silêncio (claro!). Segundo a pessoa do aviso, o jornal está sofrendo uma queda de produtividade e já descobriu os responsáveis (isso é que é jornalismo investigativo!). Segundo o Papa-Figo, é um absurdo que num jornal onde se dá tanto valor à economia, o cofre esteja tão desvalorizado.
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Aconteceu em 1995, ou 1996, Marisa Monte vinha ao Recife para apresentar o concorrido show “Cor de Rosa Verde Amarelo Carvão”. Os jornais bombardeavam notas, matérias, entrevistas, fotos com a cantora. Quem não fosse analfabeto, leu, no mínimo, uma nota neste período. Quem não leu provavelmente não tinha nascido ou estava morto. Eu estava “passando uma chuva” como estagiária do Mispe (enquanto Camilo e Camerino viajavam a Cuba). O museu era gerenciado pelo ex-crítico de cinema e gente boa Celso Marconi (o que levou dois murros de Ariano, “este é pra você, e este é pra Jomar”). Nessa época, o veterano jornalista, cansado desses frissons, bafons, bochichos e bafafás de caderno de cultura, exclamou com sua voz aguda, ao abrir mais um jornal: “Só se fala de Marisa Monte, Marisa Monte, Marisa Monte! Eu não quero saber de Marisa Monte! Entre ir pra esse show de Marisa Monte e morrer, eu prefiro morrer! Eu quero morrer! Eu quero morrer!!!”. Agora, dez anos depois, não sei como o bom Celso está sobrevivendo, principalmente nestas últimas semanas, quando só se fala em Vanessa da Mata, Vanessa da Mata, Vanessa da Mata. E em abril tem mais. Ai, ai.

23.3.06

AQUI NÃO! AQUI NÃO!


ESTÁ COM TUDO E NÃO ESTÁ PROSA - O bebê paulista Lucas Abelardo flagrado no instante em que se arrepende de colaborar com o treinamento de futuros pais no Recife.
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Como diria a música, “ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração do filho”. Seja lá o que isso signifique, nessas últimas semanas, em que este blog não foi atualizado, fiz a estréia no “padecer no paraíso”. Passei, pelo menos, seis dias, sentindo uma dor da bexiga no útero, que me impedia de realizar atividades simples, como, por exemplo, dormir. Não vou narrar a saga que envolveu médicos, remédios, aperreios e a ultrasom que revelou a pitoca do meu filho. A propósito, no exato momento em que me emocionava ao saber do sexo da criança, toca o celular. É o pai, começando ali uma pequena novela da vida cotidiana. Exulto: “É um menino!”, no que ele responde: “E Hugo?!”. Eu: “Que Hugo?!”. Ele: “Hugo é um ótimo nome!!!”. Bem, aqui abro um parêntesis. Por favor e por Deus. Você passa boa parte de sua vida, ou para muitos, a melhor parte dela, sob as ordens e gostos de seus pais, e quando finalmente chega a hora de “dar as cartas”, cai em tentação, dá vacilo e erra? Não, pelo menos, não com tanta facilidade. Respondo: “Não vou passar nove meses com um filho na barriga pra chamá-lo de Hugo! Hugo, não, Yellito! Aqui não!”. Dá para notar a minissérie que se inicia e que promete se estender nos próximos meses? Nunca pensei que pensar um nome para uma criança, sua criança, fosse algo tão difícil. Arranjar um nome pra bar é bem mais fácil: Recanto do Tota, Cantinho do Beto, Caldinho do Danda, Chambaril da Tia Jaci... Para tentar facilitar as coisas, o pai foi atrás de um dicionário virtual de nomes e descobriu o significado de Hugo (algo como “enviado de Deus”) e de mais uma dezena de outros, e todos giravam em torno do mesmo assunto: “predileto de Deus”, “filho de Deus”, “brother de Deus” e por aí seguia a lista. A batalha por este nome está apenas começando e já surgiram sugestões, que, desta vez, esbarram na maldição dos apelidos. Daniel, por exemplo, vão provavelmente chamar de Dani; Vinícius, de Vina ou Vinny (!!!) - dado ao apelido do pai, seria natural que as gracinhas não demorassem a brotar, e elas já desabrocharam (“Bota Red”, “Bota Blue”). Os curtos, tipo Ivan, Cid, Ivo, Igor, Rui, nem pensar! Muito menos esses que se encontram em toda esquina, como Diego, Diogo, Tiago, Ricardo, Paulo, Pedro. Nem os que são metidos a rico, a exemplo de João Pedro, João Henrique, Ricardo Alexandre... Nem entrar no revival dos nomes de véio (Sebastião, Francisco, Joaquim...) ou na onda “Lucas” ou “Luca” - tem uns três mil só no Recife, com menos de seis meses de idade. A vaga de Lucas já foi preenchida na família com meu sobrinho Lucas Abelardo (é, fizeram o favor de botar na pobre criança esse Abelardo que nos remete ao Velho Guerreiro). Pensei em Davi, a graça que sugeri à minha mãe para colocar no meu irmão Marinho (assim como Caetano lançou à Dona Canô o de Maria Bethânia, por causa da música de Capiba), e que, como se nota, não foi aceito. Yellow disse que Davi era nome de criança e que, um dia, essa criança iria crescer e não cairia bem para um homem atender por Davi. Bem, até agora o consenso está, mais ou menos, em torno de Astrogildo, brincadeirinha, em torno de Júlio, mas aí nós temos um problema, o filho do artista plástico. Nada que um profissional de Santo Amaro não possa resolver... Julian seria lindo! No entanto, seria abusar demais da boa vontade das pessoas. No último domingo, lá em casa, com uns amigos, surgiu esta do Julian e uma outra: Elvis!!! Elvis é espetacular, mas é algo como se chamar... Jesus. A criatura levará a cruz pelo resto da vida ou até ao cartório mais próximo. Bom, embora não seja Elvis ou Jesus, esse pirralho, seja lá qual for o nome dele, já é nosso reizinho (espaço para um sorriso).
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P.S: Hoje liguei pra médica com o fim de tirar uma dúvida, e comecei: “Aqui é Débora...”. Ela: “Débora, a gestante?”. Após alguns segundos, aceito, “É...”, meio hesitante, como se não fosse comigo. Aliás, voltando ao assunto dos nomes, escapei por pouco de ser nomeada como Sara ou Rebeca. Ufa. Valeu, Ednar e Manoel (in memorian)! - que nomezinhos, hein?

24.2.06

UM BRINDE ÀS GAFES E AOS GAYS!


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Baseada nesta foto, vou contar uma história, uma história verídica (voz de Cid Moreira). Os nomes verdadeiros serão evitados para não constranger os envolvidos. Aconteceu com uma amiga. Ela trabalhava num jornal de interior. Assim como ocorre nas publicações de grande circulação, havia colaboradores no tal matutino, articulistas. Um deles, cuja profissão não sei, era homossexual, e tinha, como se diz, “toda a bagagem”, toda a “pinta”, mas logicamente não queria que isso saísse nas primeiras páginas dos jornais. Naquele fatídico texto, assinado por ele, o cidadão escreveu algo espalhafatoso, ao modo dos títulos de fantasias carnavalescas, como “a aurora da arte e suas implicações metalingüísticas nas possibilidades do amor em sua plenitude”. Algo que virou motivo de qui-qui-qui na pequena redação. Como se sabe, embaixo de cada artigo, crônica, publicado em jornal, costuma-se escrever “Fulaninho de Tal é...”, aí vai de astrólogo a deputado, passando por psicólogo, somaterapeuta, cabeleireiro, ginecologista... No crucial momento, o diagramador, com as duas mãos postas no teclado, pergunta pra minha amiga, “Fulaninho de Tal é o quê, hein?”. Ela: “Gay!”. Todos riram, concluíram a edição e foram para suas casas com a sensação do dever cumprido. No outro dia, do prefeito ao flanelinha, a cidade inteira lê: “Fulaninho de Tal é gay”. E Fulaninho de Tal morava na tal cidade. Foi um rebu. A pobre, autora da inocente brincadeira não compreendida pelo colega de trabalho, foi obrigada a, junto com o editor, bater na casa do Fulaninho de Tal e apresentar, além das desculpas iniciais, a notícia em primeira mão e acrescentar que, infelizmente, apesar da hora, 15 mil jornais já tinham sido rodados e distribuídos para toda a cidade com a tal informação. Fulaninho de Tal, em todo o seu direito de processar o jornal e ganhar uma boa recompensa pela vergonha pública, vendo a aflição na cara dos “culpados”, encarou o ocorrido como a mais profunda verdade de sua vida, como se lá estivesse publicado um dispensável, mas simples e socialmente aceitável “é homem” ou “é mulher”.
Momento Gorpo: Dali em diante, pelo menos naquela redação, todos aprenderam que brincadeira não é para se levar a sério e que, exatamente por isso, ninguém perdeu o emprego.

20.2.06

FOREVER YOUNG


Mick e Bono, juntos consomem a maior quantidade de tinta pra cabelo na história da música.
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Antes dos sixties, a “onda era ser velho”. Segundo Nelson (quando digo “Nelson”, não preciso dizer o Rodrigues, né? O Nelson Rubens é que não é, muito menos o Piquet ou o Gonçalves), em sua juventude, os jovens tinham vergonha de ser jovens: “eu andava rente às paredes, com medo de que alguém descobrisse que eu era jovem”. A partir dos anos 1960, os jovens começaram a falar. E principalmente a serem ouvidos. (Aí, a publicidade os descobriu e danou-se tudo!) Foi nessa época que dois famosos velhos despontaram, Mick Jagger, 62, e Woody Allen, 71. Neste final de semana, fiquei feliz, “satisfeita”, em assistir a mais recente produção dessas pessoas da terceira idade. No sábado, o show dos Rolling Stones não apresentou muita coisa de diferente do que já conhecemos. Apesar das muitas primaveras, Maracujagger continua com fôlego para a performance olímpica de maior vocalista de rock desde que o rock é rock (não porque vem repetindo os gestos, caras, bocas e requebrados, aos quais estamos acostumados, mas porque sintetiza tudo o que um bandleader pode ser no palco: corajoso, carismático, descontraído, agregador, líder). Bom, se algum fã esperava vê-lo jogando-se no chão, na platéia, subindo como uma lagartixa em alguma estrutura de ferro e tirando a roupa (por completo) deve estar pedindo demais para uma pessoa que faz esse serviço há mais de quarenta anos. Creio que exibir aquela barriga de tanque (e não estar careca!), a esta altura da vida, já seja um espetáculo em si. Aliás, esse show poderia ter sido considerado “decadente por completo” (por muitos detratores), se Jagger e o resto da banda estivesse ostentando aquele bucho de chopp, o qual estamos entediados de ver nos sessentões papudinhos deste país. Estou orgulhosa de Mick, de sua barriga, de seu cabelo pintado, de suas pregas, e vou incluir também o fato dele ter cantado “Oh, no, not you again”, o recado pra Luciana “Gimme"nez, que quer ser sua amiga e confidente a pulso (o título da música também vale para os brasileiros que ligam a TV e têm o desprazer de ver e ouvir a perua). Outro caso de “velhinho prodígio” que nos orgulha é Woody Allen, que, quando parecia já ter nos dado tudo o que tinha que dar (não preciso citar a extensa e diversificada lista de filmes extraordinários), nos aparece com esse Match Point, que aparentemente é uma história trivial, dirigida de uma forma trivial, mas o nosso eterno querido diretor-escritor-ator consegue se reinventar realizando uma pequena obra-prima de narrativa sutil, de personagens bem construídos e marcantes e com uma aula de direção, sem malabarismos. Woody e Mick nos deram uma lição: ser jovem ou ser velho só é bom para quem sabe ser.


"Eu tô num filme de Woody Allen, pôrra!", pensa cada um dos atores de Match Point, inclusive a linda e loira Scarlett, que já está escalada para o próximo.

14.2.06


Yellow me apresentou essa banda há nove meses, mas só agora resolvi escrever este post, por conta de (mais) uma audição na hora do almoço em minha NOVA CASA.
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The Go! Team é esse povo aí com cara de indie que fez o disco essencial hoje em qualquer pista de dança. The Go! Team é sábado de manhã de sol, é céu azul, é jardim, é o pipoco do trovão (pegando carona no título do CD “Thunder, Lightning, Strike”, lançado em outubro do ano passado), é se preparar pruma festa à noite, é Burt Bacharach, James Brown, Stevie Wonder, Spice Girls, trilha sonora de Snoopy, Beastie Boys e a Torcida Jovem, é barulho, é Hey Ya!, é descarga de endorfina, é acabar subitamente com os problemas, é ser transportado pra um lugar onde todos são bons, bonitos, saudáveis, legais, amigos e tem novamente 17 anos. Ouça bem alto, por exemplo, a faixa Bottle Rocket, se possível em casa, sozinho, comece a dançar e encontre a felicidade num pedaço de música.
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Agora é pra valer. Três meses depois de tanto suor e ranger de dentes, finalmente achamos um lugar que cumpre todos os itens que procurávamos: um apartamento maior que o anterior, barato (ou pelo menos, não tão caro), ventilado, bem localizado e com uma... varanda !!! Enfrentamos toda a sorte de aborrecimentos, incluindo bisbilhoteiros possíveis futuros vizinhos, corretores pegajosos, cozinhas com portas de saloon, salas quentes, quartos barulhentos, porteiros tarados, imobiliárias extremamente burocráticas, argh! Depois disso, veio a mudança, o estresse em si, que incluiu ainda senhoria no pé, procura de pintor bom e com preço “em conta”, ligações para empresas de transporte dos móveis, atendentes cafuçus, escalação de irmãos para ajudar no carregamento, etc. Para resumir, estamos mudados. Quando penso que minha mudança tinha sido um sufoco, encontro ontem com um amigo que me diz que foi se mudar há duas semanas e terminou no xadrez. O coitado pegou emprestada uma caminhonete de um colega para fazer a empreitada. No meio do caminho foi parado por uma blitz. Pediram documento e tal. Começaram a revistar o carro, encontrando nada mais, nada menos que um revólver (esse meu amigo não sabe nem atirar de badoque). “Cabra safado!” - a polícia começou desta forma a prisão, o algemou, levou pra delegacia, depois pro Cotel. Detalhe: o dono da caminhonete não tinha documento de porte de arma. Então, a pessoa que iria se mudar, amargou 36 horas no xadrez, onde ainda apanhou dos fardados, tirou aquela foto com o número embaixo do rosto e teve que pagar a presos pra ser bem tratado. Na cela, um dos detidos disse “aquele revolver não mata ninguém, com aquilo eu chamo garçom em bar”. Hoje, esse cidadão está com advogado tentando provar que estava apenas tentando fazer uma mudança.


Banda paralela de Jack White - Será que ele finalmente vai dar o lavra em Meg?

6.2.06

GEORGE NÃO ME OUVE


ALTO DO BRÔQUEBEQUE - Esse da direita não é Jake nem a pau!
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Finalmente após a terrível “temporada de férias” e com essa corrida ao Oscar, os cinemas começam a agendar os bons filmes. Alguns coincidem nos temas e no bafafá: homossexualismo, jornalismo e mundo caipira. Tem “Johnny e June”, cinebiografia de Johnny Cash que estréia nesta semana no Brasil, e “O Segredo de Brokeback Mountain (além de Heart of Gold, de Jonathan Demme, de O Silêncio dos Inocentes, sobre Neil Young, que estréia nos EUA na sexta). Brokeback, favorito ao Oscar de melhor filme, mais do que uma história que envolve gays é uma bela história de amor entre dois homens. Brokeback é muito bem dirigido até 1h30 de projeção, até que no minuto seguinte você começa a ficar cansado porque Ang Lee perde as rédeas e o filme parece se resolver por si só, o que apesar de não ser bom, pelo menos, não traz um resultado desastroso. "Boa Noite, Boa Sorte" é a produção que parece ter alçado George Clooney de vez à condição de “homem de respeito” em Hollywood – ainda é cedo para dizer, mas uma espécie de Clint Eastwood. Contando a saga real do jornalista Ed Murrow contra o ultra-conservador Joseph McCarthy, Clooney, mesmo com todos os confetes recebidos por este filme, não consegue ser criativo dentro das limitações das filmagens ambientadas em um estúdio de TV e dos registros dos discursos da época, ao contrário de Ang Lee que segura o espectador nos 50 minutos iniciais com apenas dois atores e um cenário, o campo (esse momento é uma obra-prima, como bem escreveu Rodrigo Carreiro). A dupla Jake “Donnie Darko” Gyllenhaal e Heath Ledger merece com ardor as indicações às estatuetas, principalmente este último pelo estilo de atuar que lembrou o nosso Clint (deve ter assistido todos os filmes). Com isso, Heath (“Dez Coisas que eu Odeio em Você”) conseguiu, a exemplo da própria Reese Witherspoon (“Johnny e June”), que já ganhou seu Globo de Ouro, superar os “filmes de adolescentes”. Nesta semana, além de “Johnny e June” (Walk the Line), estréia “Capote”, a produção que possivelmente dará o Oscar ao rouba-a-cena Philip Seymour Hoffman, que, a exemplo de Jammie “Ray” Fox no ano passado, encarnou com fervor uma personagem, neste caso, o jornalista e escritor Truman Capote (“Bonequinha de Luxo”). O feito de Philipinho pode ser testado na aparição do próprio Capote na comédia (imperdível) “Assassinato por Morte” (1976), cujo elenco reúne Peter Sellers, David Niven, Maggie Smith, Peter Falk e (a primeira atuação d)o então jovem ator que depois interpretaria o dono de Baby, O Porquinho. Mas, voltando ao caso do famoso, rico, elegante, inteligente, charmoso, sexy, cool, bem-humorado, boa-praça, talentoso, poderoso e (como se tudo isso não bastasse) lindo George Clooney: realmente, apesar de todas as indicações que recebeu, o gato deveria, pelo menos, no final de "Boa Noite, Boa Sorte", ter nos “informado” tanto da vida do jornalista quanto do senador mala e seus males, que não foram poucos. Por exemplo, uma das pessoas prejudicadas pela “caça aos comunistas” promovida pelo vilão foi o escritor e roteirista Dalton Trumbo, cujo julgamento aparece nos extras de “A Princesa e o Plebeu” (1953). Banido de Hollywood por “ser julgado comunista”, Trumbo só pôde aparecer nos créditos e ganhar o seu pão-de-cada-dia sob a condição do pseudônimo Ian McLellan Hunter. E essa presença, ainda que mascarada, só aconteceu graças ao ato de coragem do superdiretor William Wyler. Mas George não me ouve...

P.S: Sobre a terrível “temporada de férias nos cinemas”, é bom eu começar a me acostumar a ela...

2.2.06

BLOCO DA SAUDADE



“Florilton Tabosa, te encontrar é garantia de diversão, de alegria, de celebração, de energia boa. Você está sintonizado com o que há de bom. Por isso merece tudo do bom e do melhor que a vida possa oferecer. Te curto, lindo!”. Este foi o depoimento que registrei no orkut, em dez de maio do ano passado para Flor, e é assim que vamos tê-lo daqui adiante. Estamos todos muito tristes porque queríamos tê-lo ao nosso lado, do lado dos que estão vivos, do lado da vida. Mas quem somos nós para dizermos que nós é que estamos na “vida”? De qualquer forma, do “lado de cá”, Flor continuará presente enquanto houver alguém se divertindo, amando, sorrindo, bebendo, caindo no frevo, no maracatu, no eletro, no samba, no rock, se encantando com algum filme ou livro, sentindo as boas vibrações da presença da diva Maria Bethânia, evoluindo como ser humano, Se Entregando Por Inteiro à Vida.